quinta-feira, 2 de julho de 2020

Vou Até à casinha:
Esta expressão, talvez desconhecida da maior parte das pessoas que porventura me venham a ler, tem a ver com uma ida à mata, ou à privada, ou à retrete, casota oculta e retirada da casa onde as pessoas, em tempos idos, satisfaziam as suas necessidades fisiológicas.
Sempre pensei que o termo retrete vinha do francês, mas só hoje confirmei que na verdade vem da palavra francesa " Retraite" que significa retirada .
Quanto aos inventores das retretes, Rosa Ruela, jornalista da revista Visão diz que " Tanto os escoceses como os gregos dizem que foram eles. A verdade é que, numas ilhas que hoje pertencem à Escócia, existem vestígios de umas cabanas de pedra que os historiadores acreditam terem sido casas de banho no Neolítico".
E que "Na Idade Média, nalguns castelos, havia uns pequenos buracos na base das muralhas, por onde escorria a imundice. Agora, parece-nos nojento, mas devia dar jeito para afastar os cavaleiros inimigos! Até que alguém se lembrou de construir uma caixa com tampa, a lembrar as retretes dos nossos dias. Como era preciso usar um balde de água, ganhava mau cheiro facilmente. E, em 1596, há mais de 400 anos, apareceu o autoclismo."
A verdade verdadinha é que as casas de banho e as sanitas nem sempre foram o que são hoje e a comprová-lo aqui vão as fotos de uma "casinha" muito antiga e decadente, escondida pela vegetação, que havia no fundo do quintal do quinteiro,figura que actualmente não existe, porque os tempos não estão para graças, do prédio onde vivo. Levamos uns tempos a recuperá-la, porque na verdade, não era obra prioritária , mas fizemo-lo porque achamos engraçado e um contributo histórico para a posteridade. Agora só falta a tampa e a porta, o que ainda ainda vai levar o seu tempo.
Entretanto se alguém te perguntar pela pia, privada, latrina, cumua ou trono, não te admires porque só quer saber onde fica a retrete. Sim, porque ainda há muitos povos que vivem sem casa de banho, sem sanitas de porcelana, sem autoclismos e sem papel higiénico e não te rias, por favor, é por isso que o dia 19 de Novembro é o dia Mundial da retrete, instituído pelas Nações Unidas, como uma chamada de atenção para a falta de esgotos e de higiene sanitária em muitos países.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Nada a esconder...

Lição de vida:

Li há tempos uma história, muito engraçada, que falava do nervosismo de uma jovem no primeiro dia em que foi a casa dos pais do namorado. Indo a caminho, constatou que tinha os sapatos sujos e, resolveu limpá-los com um guardanapo de papel, com que tinha embrulhado uma sandes de presunto. Ao chegar à casa do noivo foi recebida e cumprimentada com agrado pelos pais do rapaz e farejada pelo cachorro da casa que não a largou por sentir o cheiro do presunto.
Na hora da despedida, foi elogiada pelos pais do noivo que fizeram referência ao cachorro que não tinha o hábito de ser dócil e que tinha gostado dela sabendo julgar o carácter das pessoas.
-Se o cachorro gostou de você - disseram eles -  para nós isso é um sinal e será um prazer recebê-la como um novo elemento da nossa pequena família!
Estando nas Lajes, freguesia hoje vila, onde nasci e me fiz mulher, a restaurar a casa dos meus pais, lembrei-me desta história deles e do primeiro dia que me acompanharam a casa do meu noivo, hoje marido. Fomos recebidos também com muita gentileza, à semelhança da história anterior, e para nos integrarem no seu ambiente mostraram-nos as várias divisões da sua casa, grande e boa, uma casa da cidade, como se dizia na altura...
Chegou o dia de se retribuir a visita e lá vieram, em dia de festa, os novos familiares a nossa casa.
Minha mãe, que era a especialista em etiqueta, como dizia o meu pai a brincar, resolveu também mostrar a nossa casa simples mas na qual nos sentíamos muito bem e onde éramos felizes.
- Mas - disse eu - é uma casa simples, não tem nada de especial para mostrar!
- Não tem nada para mostrar, ou tem pouco para mostrar, se comparada com a vossa casa - diz o meu pai prontamente - mas também não tem  nada a esconder, o que já é muito bom!
Esta foi uma das mais importantes lições de vida que recebi do meu pai e que nunca esqueci, mesmo que tenhamos pouco a mostrar, se não tivermos nada a esconder, já é uma grande riqueza...
É por isso que estou a restaurar, com orgulho e vontade, a nossa casa das Lajes, porque ela me traz gratas e doces recordações como esta!
E aqui vai a nossa foto tirada em 1971,contemporânea desta história que te conto.


domingo, 28 de junho de 2020

Especiarias e especieiros:

Hoje fiz caldeirada para o almoço - nada de especial dirás - é verdade, contudo eu que não sou de seguir receitas pré estabelecidas,dei por mim a usar diferentes sabores, porque considero que a comida fica com um sabor incompleto sem temperos, são eles que lhe dão aquele toque de magia, aquele aroma que faz com que apreciemos o que está na travessa, terrina ou no prato.
Mas comigo as coisas não funcionam simplesmente, é um pouco mais complicado, enquanto manuseava os frascos com os temperos que ia utilizando, dou por mim a matutar em tempos recuados em que só os mais ricos tinham acesso às especiarias e em que as mesmas tinham o valor do ouro chegando-se ao ponto de serem deixadas, em testamento, quantidades de especiarias e muitas vezes eram usadas como moeda de troca ou para pagar ou subornar favores, e no tempo em que cidades europeias como Veneza e Génova cresciam em riqueza à custa das especiarias, anis estrelado, cominhos, gengibre, canela, noz-moscada, cravo da índia, pimenta, cominhos, açafrão, levando o nosso pequeno país à beira-mar plantado, conhecedor  desta fabulosa possibilidade de enriquecer, e conhecedor das rotas destes produtos até ao Oriente, a aventurarem-se e a lançarem-se numa verdadeira epopeia marítima até à Índia.
Claro que  isto não passa de uma pequena e pobre resenha do muito que haveria a dizer sobre o assunto o qual aflorei para registar o quanto temos a vida facilitada, neste capitulo, basta só ver a grande variedade de produtos que temos à nossa disposição que temos à nossa disposição o e de novos produtos resultados da combinação de várias especiarias como é o caso da paprika do caril e outros.
E agora, está à espera que eu mostre a dita caldeirada? Impossível, praticamente já quase não existe, o que te mostro são os meus especieiros lindos e antigos que, como o nome indica,são utilizados para servir especiarias na mesa.
Votos de boa semana!










sábado, 20 de junho de 2020

E tudo se esfumou!


Estava eu muito bem sentada
E muito bem acompanhada
Nos degraus da nossa catedral
Não se avistava nada de mal!
O covid não existia,
Não se falava em pandemia, 
Vivia-se muita alegria,
E o povo contente sorria...
Muita luz e muita cor,
Música e um suave calor,
No ar pairava o amor 
E a S. João um clamor.
E o cortejo já se via...
O chefe do protocolo cumprimentava,
As aias eram lindas de verdade,
A rainha a todos acenava,
Ai Angra com tanta beldade!
E nós todos embevecidos
E ao criador agradecidos,
Por vivermos em harmonia
por termos saúde e alegria.
Mas, algo estranho aconteceu...
Repentinamente amanheceu
E eu estremunhada acordei
E logo logo pensei:
-Isto não passou de um sonho
Um sonho pouco risonho
Tudo o que era bom se esfumou
E tudo, tudo mudou!

Clara Faria da Rosa
20/06/2020




segunda-feira, 15 de junho de 2020

Um ano diferente:

Realmente, este é um ano diferente em todos os aspectos, sociais, culturais, recreativos e religiosos... Não fora isso, a esta hora as Bicas de Cabo Verde estariam coalhadas  de gente e a coroação já ia a caminho da igreja, a filarmónica encheria os ares com os seus acordes apropriados e as coroas luziriam nas mãos das senhoras, que se tinham predisposto a levá-las, para depois virem nas cabeças das crianças coroadas. 
O Império estaria lindo, com o altar cheio de flores ricas e exóticas, em arranjos feitos por mãos devotas e habilidosas e nas nossas casas recebiam-se amigos e familiares para um almoço melhorado... Infelizmente tudo isso foi adiada, contudo, a comissão resolveu que o império estaria neste dia aberto, e que o Senhor Espírito Santo ocuparia o seu devido lugar, embora decorado com modestas flores, e com pouco engenho e arte, foi do coração!
Não há pandemia que faça esquecer esta fé, esta ancestral devoção ao Divino Espírito Santo!



domingo, 7 de junho de 2020

Crenças:

Hoje é o domingo da Trindade e, na Terceira. seria o dia do segundo bodo e haveria coroações sopa cozido, arroz-doce,pão e vinho em abundância para toda a gente, em louvor do Divino Espírito Santo. Acontece que este ano as coisas não seguirão esta regra, está tudo ainda muito recolhido devido à pandemia do covid, não haverá  as tradicionais brindeiras de cabeça airosa que a todos agradam, não haverá, é como quem diz, porque aqui te mostro a cabeça de um pão do bodo de 2019, esteve um ano inteirinho, muito arrumadinho num canto da gaveta dos panos da loiça e aqui está ela durinha nem pedra mas bolor nem vê-lo, estava à espera da cabeça da brindeira deste ano para ser substituída!
As nossas antepassadas tinham destas coisa acreditavam que o pão bento não embolorava e guardado em casa abençoava a família e fazia que a vida levedasse, medrasse, encarreirasse... e, pelos  vistos, ainda há quem acredite e mantenha a tradição de guardar a cabeça da brindeira de um ano para o outro, também não perdemos nada em tentar pelo menos perseveramos esta singela e mimosa tradição!

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A maçã podre:



Junto com a foto que aqui inseri, no dia da criança, encontrei esta do mesmo grupo, mas de um ano diferente, está amorosa, até me ri sozinha ao ver os dois lá atrás de braços cruzados, numa pose de homenzinhos e o Labandeira, sentado no muro à esquerda, com aquele seu ar agarotado. e o Cláudio e o Nuno no muro à direita, com as nuvens à volta da cabeça, parecem anjos no céu!
Mas hoje vou contar uma história de outro aluno, o José Cardoso que está sentado entre a Raquel  e o Edgar e veste camisa branca. O José era um pouco mais velho do que os companheiros e tinha a sua exploração de galinhas, nos terrenos do pai, na Grota do Vale, eu até dizia a brincar que era o meu aluno avicultor.
Os alunos geralmente iam a casa almoçar e certo dia o José foi a casa almoçar e despachou-se depressa para vir jogar à bola com os companheiros, antes porém, entrou na sala para me visitar, nem que já não me visse há muito tempo!
-Então José - Pergunto eu - que tal foi o almoço?
- Para consolar - responde -  dois ovos estrelados, das minhas galinhas, linguiça frita, uma pratada de batatas fritas, um chocolate que comprei na venda - de registar que ele tinha o seu próprio dinheiro, pois vendia os ovos da sua exploração -  e ainda trago esta maçã! remata, muito satisfeito...
- Ó homem, não podes comer mais agora - digo eu - deixa aí na mesa a maçã para comeres no intervalo!
E lá continuou ele de cotovelos fincados na minha secretária e com a cara entre as mãos, a ver-me corrigir os trabalhos até  que, naturalmente depois de muito pensar, diz:
- A Senhora professora pode ficar com a maçã para si, eu ofereço, mesmo não ia comê-la porque está meia podre!
- Ó garoto, ias oferecer-me uma maçã podre! - digo eu entre o zangado e o divertido...
Ao que ele  responde já a caminho da porta, de olhos gaiatos e na cara um sorriso divertido:
Ainda se aproveita alguma coisa!...
E lá foi ele, para a brincadeira, para o sol, para a vida!!!
Humildemente confesso: - sinto-me muito orgulhosa e grata por a vida me ter proporcionado momentos como este, não me importava nada que alguma criança me voltasse a oferecer uma maçã meia podre. Saudades!

terça-feira, 2 de junho de 2020


BRISA DO MAR...

- Se eu fosse a brisa do mar,
Murmurava bem baixinho,
À Lua, ao Sol e à Terra,
À paz, à calma e à guerra,
Aos montes, vales e cidades...
- Eu sou a brisa do mar,
E vejo o Mundo a Girar,
E os homens a sofrer,
As mulheres a gerar,
E as crianças a crescer...
- Eu sou a brisa do mar,
 E quero pedir ao Mundo,
Que olhe bem à sua volta
E acabe com a revolta
E semeie o perdão,
O amor e a gratidão,
E ouça o meu murmurar
Que a todos quer recordar
Os valores do passado,
E que o Mundo está mudado
Com falta de uma linda flor
Que lhe traga nova cor!

Clara Faria da Rosa

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Agora estamos pobres!

Em dia da criança:

Hoje celebra-se o dia da criança, está mais do que assente que todos os dia são dias da criança, da mulher, do pai, da mãe, do irmão e outros que tais....Contudo , embora concorde com esta corrente, por outro lado, também defendo que  estes dias são uma chamada de atenção para certas problemáticas e para reflectirmos sobre elas e em, em certos casos, corrigirmos certas posturas e  atitudes. Vai daí que hoje, enquanto tratava dos meus afazeres domésticos, pensei muito e com imensas saudades, em todas as crianças que passaram na minha vida profissional, concluindo com pesar que talvez não tenha feito por elas o suficiente ou que nao tenha  atingido em pleno os objectivos pedagógicos propostos, enfim, fiz o que soube e pude sempre com muito carinho,  vontade e respeito por aquelas crianças que me tinham sido confiadas.
Acontece que entre todas as crianças de que te falo, num certo ano lectivo, na escola de Ladeira Grande na freguesia de Ribeirinha, na ilha Terceira tive um aluno chamado William Lopes Pires, os pais do William, imigrantes, na Califórnia, tinham decidido regressar à terra natal com os seus filhos para que estes crescessem e se fizessem homens e mulheres num ambiente mais calmo, mais de acordo com os seus valores.
 Vai o William para  a escola, uma criança encantadora, com um vocabulário português um pouco deficiente em relação aos colegas da mesma idade. Certo dia , muito irrequieto, não parava... Falava para os companheiros, levantava-se, enfim estava a ser-lhe difícil aquele dia!
Então eu, talvez também cansada e sem pensar abro a boca e...
- William, não paras, não te calas, não tens educação?!!!
Ainda bem não tinha pronunciado estas palavras, já me tinha arrependido e então quando vejo aquele palmo de gente, de cara muito redondinha e cabelos pretos encaracolados olhar para mim com uns olhos muito pretinhos, brilhantes inocente e meigos responder-me : Não, a minha mãe diz que agora estamos pobres... Fiquei de tal maneira triste, arrependida e envergonhada que ainda hoje passados que são tantos anos ainda me lembro disso!
Aquela criança estava habituada a outro meio a outras coisas que pedia  à mãe que não podendo satisfazer o pedido do filho dizia : - Não pode ser, agora estamos pobres!
E lá andava o William no meio daquela grande mudança na sua vida sem ter o que queria, conhecendo poucas palavras e com uma professora empertigada que se esquecia disso tudo!
Afinal uma criança é um mistério que tem que ser alimentado mas sobretudo acarinhado, respeitado e compreendido, Neste dia da criança, peço desculpa a todos os meus alunos que não compreendi ou não amparei no momento certo e apresento-te o William com os seus colegas de turma, de quem tenho muitas saudades, aqui na foto, sentado, à direita.

domingo, 31 de maio de 2020

Em dia de Bodo:



O vestido tristonho...
Em tempos idos, quando eu era jovem, as pessoas preparavam-se para  este dia em termos de indumentárias, os homens usavam o seu fato escuro e punham gravata e as mulheres faziam novas toaletes, conforme ditava a moda da altura e lá iam em alas
 acompanhando o imperador para a igreja cujo altar-mor ficava parecendo um coro celestial com as crianças da "briança"  todas de branco. Assistia-se à missa  que culminava com  a coroação acompanhada  do  Veni Criator Spiritus,  por entre uma nuvem de incenso queimado no  turibulo,  que balouçava na mão do sacristão. 
Era então a altura de se formarem novas alas e de se dirigirem para o império e despensa para aguardar a distribuição do bodo: pão, em grandes cestos de vimes e vinho para quem lá estivesse quer residentes quer forasteiros...
O meu conterrâneo e amigo José Eduardo Espínola diz que, segundo reza a história, "em dia de bodo os bêbados não se imbobedam"
Nas varandas, as raparigas exibiam as suas roupas novas e namoriscavam os rapazes que, do terreiro, lhes atiravam confeitos para  chamar  a atenção e eu, pobre de mim, fazia parte deste grupo, contudo um pouco triste porque, tínhamos estado a ultimar as roupas das clientes até à última hora e,  usava roupa desactualizada e sem graça, não houvera tempo de reformar o meu guarda-roupa!
Passaram-se muitos anos, na minha última viagem a Lisboa vi um vestido que entendi  ser indicado para a minha idade, para o meu corpo e para a minha carteira e comprei-o pensando com os meus botões:
- Vai servir para usar no dia do Bodo e em algumas festas de Verão!
Passaram-se  os meses, veio esta pandemia e tudo mudou: 
- Quando eu era jovem e  havia bodos e festas na ilha Terceira eu não tinha roupa nova para usar e agora que tenho roupa nova para usar não há bodos nem festas - o que é um mal menor perante tanta tristeza que vai por esse mundo fora!
Então, na falta de oportunidade de usar o dito e pensando que vai ficar desactualizado aqui vai ele, dou-lhe esta oportunidade de aparecer, tristonho, tristonho, como a sua dona, por não ter ocasião de arejar, de dar à perna, de se divertir... 
A vida tem destas coisas!











sexta-feira, 29 de maio de 2020

O meu açafate restaurado:

Pão do bodo...

No dia que antecedia os Domingos do Espírito Santo e  da Trindade a minha mãe levantava-se bem cedo, para fazer a amassadura e cozer o pão para o bodo. 
Quando os encarregados de distribuir o pão no bodo, os chamados mordomos, tinham passado a pedir, os meus pais haviam-se comprometido a colaborar com um determinado número de pães, havia quem desse dinheiro, mas os meus pais gostavam de continuar as tradições...
Depois do forno bem quente lá ia o pão muito bem tendido, com as suas cabeças airosas, para o forno, e a minha mãe deitava nas brasas uma mão de sal e dizia:
- Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus te acrescente! 
E lá ia o pão crescendo, enquanto a minha mãe vigiava não fosse ficar muito escuro, pois era coisa de responsabilidade!
Enquanto isso preparava-se o açafate, um lindo cesto redondo de vimes finos sem tampa e sem asa, que trouxe da minha casa das Lajes muito maltratado, com xilófagos, a tal palavra científica para o popular caruncho, que  foi restaurado pelo nosso amigo Carlos Duarte Martins, com um produto apropriado, e  outras técnicas que desconheço.
 Era então altura de se abrir a arca e de se retirar uma linda toalha branca, com uma artística barra de renda, do enxoval da minha mãe e lá se punham os pães na vertical, muito encostadinhos uns aos outros, com a cabecinha de fora e a minha mãe, num gesto de requinte, ia à roseira do quintal e apanhava as melhores rosas, que ela chamava rosas do bodo, por florirem naquela altura, para decorar todo aquele mimo, toda aquela doação, todo aquele gesto de cidadania, palavra que eles desconheciam embora soubessem e levassem bem a sério o facto de que deviam contribuir para que a tradição não se perdesse e para que todas as pessoas que passassem no bodo  da  à altura freguesia hoje vila das Lajes. tivessem o seu pão.
E lá ia o meu pai, com o açafate às costa, para a despensa, entregar o pão que, em conjunto com o das outras famílias e com o que o mordomo tinha cozido, seria distribuído, no bodo a todas as pessoas que por lá passassem.
O que os meus pais não imaginavam é que passados tantos anos o seu gesto o seu açafate iriam ser  lembrados com tanto apreço e saudade. 




sexta-feira, 22 de maio de 2020

No dia do abraço:

Abraços...
Devemos saber abraçar
Com carinho, devagar...
E tudo e todos aceitar,
Por isso venho anunciar:
-Abraço-te a ti , meu amigo
e a ti meu inimigo,
Neste dia especial 
abraço a todos por igual,
Abraço a opulente riqueza 
e a miserável  pobreza,
Abraço tudo o que vier
tudo o que tiver que viver,
A saúde e a doença
a bem e a má-querença,
Tudo faz parte do mundo 
até a dor mais profunda,
Abraço as palavras elogiosas
e as criticas mais odiosas,
Abraço as alegrias da vida
e os dias tristes sem medida,
Abraço hoje e todos os dias
as novidades e mudanças,
Abraço o que me calhar na sorte
até a negra hora da morte!

Clara Faria da Rosa

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Dia da espiga-Uma linda tradição!

Hoje é Quinta- feira da ascensão. A igreja comemora a ascensão de Jesus Cristo ao Céu e encerra, deste modo, o ciclo de quarenta dias após a Páscoa.
Também, neste dia e sobretudo no Sul do país, há o gracioso hábito de as pessoas irem pelos campos colher espigas para fazerem ramos que penduram em casa e que só substituem pelo do ano seguinte.Estes ramos são feitos de espigas de trigo e de outras flores que simbolizam a fecundidade da terra, a alegria de viver, a abundância, a beleza e a paz.
Nas grandes cidades vêem-se vendedores com grandes recipientes cheios de ramalhetes que vendem aos transeuntes que gostam de preservar este mimoso costume. Dá a sensação de que o campo invadiu a cidade! posso testemunhá-lo porque o ano passado assisti embevecida a este evento.Simbolismo das flores do ramalhete:
Flor branca simboliza a Paz.
Flor amarela simboliza o ouro.
A papoila simboliza o amor e a vida.
Um raminho de oliveira simboliza azeite e paz .
Malmequer simboliza ouro ou prata (conforme a cor do mesmo).
Espiga simboliza pão (abundância).
Videira simboliza vinho e alegria.
Alecrim simboliza saúde e força.
Embora nos Açores não haja esta tradição mas considerando este hábito engraçado e saboroso, deixo aqui estas espigas com votos de alegria, paz, prosperidade e muito amor, isto tudo acompanhado com muito respeito e carinho pelas tradições que os nossos antepassados nos legaram.



domingo, 17 de maio de 2020

Boca Doce



Desde 1955 que estas pequenas carteirinhas de um pó milagroso acompanham as famílias portuguesa  atingindo o seu auge nas décadas  de 60, 70 e 80. Assim sendo, foram contemporâneas da minha meninice, aos Domingos a minha mãe costumava fazer um pudim, só juntava leite, que tínhamos de casa, e umas colheres de açúcar e depois de o levar ao lume a engrossar, metia-o numa  lata reciclada, das de fruta dos americanos, que era introduzida num alguidar com água fresca, não tínhamos frigorífico, e eu à hora da refeição ficava de olhos arregalados, expectante, a ver a minha mãe desenformar aquela maravilha - que nos iria adoçar a boca - como dizia.
Esta sobremesa acompanhou várias gerações e continuando com os seus sabores simples, actualmente, por vezes, sofre combinações modernas que lhe dão uma diferente apresentação.
Hoje fiz Boca Doce para a sobremesa e enquanto a saboreava na minha mente ouvia o inesquecível anuncio publicitário que ouvíamos no rádio:

O BOCA DOCE É BOM, É BOM, É!
DIZ O AVÔ E DIZ O BEBÉ!











domingo, 10 de maio de 2020

E a menina sonhava...
E a menina sonhava,
Tinha estrelas nas mãos,
E o luar no olhar,
O Mundo era todo seu!
E a menina esperava,
Por um Mundo a descobrir
Lindo, justo, especial,
Com crianças a sorrir!
E a menina acreditava,
Doce, esforçada e confiante
Que todos eram iguais,
Que a diferença não importava,
Que o Mundo ninguém rejeitava!
E a menina, sã, confiava,
Sonhava, esperava...
Mas a menina aprendeu,
Que os sonhos são só sonhos,
Que as estrelas brilham menos,
E que o Mundo é só de alguns,
E que rejeita os restantes!
Clara Faria da Rosa

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Dia do trabalhador:

Lembro a todos humildemente:
-Há quem trabalhe com vontade
há quem para os outros trabalhe
há quem trabalhe pela metade
E há quem dos outros se aproveite...
E lembro ainda modestamente:
-Há os que trabalham esganados
e quem não trabalhe nada
os primeiros ficam cansados
e aos segundos não dói nada...
E lembro ainda simplesmente:
-Todos devemos trabalhar
cada qual à sua maneira
para podermos parar
quando chegar a canseira...
E lembro também que devemos dar:
-Muito valor a quem trabalha
dando exemplo a quem descansa
e muita abundância espalha
enchendo peitos de esperança...
E finalmente ainda lembro :
-Devemos honrar quem trabalha
que não deve ser explorado
e ao patrão que o trabalho paga
com justiça  e bem remunerado!

Clara Faria da Rosa,
01/05/2020
(dia do trabalhador)



Maio na Terceira:

Já que não vamos ter touradas, resta-nos a lembrança, neste dia em que se iniciava a época das touradas, na nossa ilha...

Aí vem Maio
Coberto de flores,
Aí vem Maio
E muitos amores.
Maio na Terceira,
Mês das boninas amarelas
Dos jardins muito enfeitados,
Das meninas nas janelas
Dos jovens enamorados.
Maio na Terceira,
O sol brinda-nos
Com o seu calor
E os pássaros com seu clamor.
O vento murmura suave mensagem,
Percebe-se uma mudança,
E o povo desta terra,
Com a festa na lembrança
Desabrocha ...
Liberta-se ...
Diverte-se...
E O foguete num estoiro
Pum, Pum, Pum !
Sobe estrelado,
E da gaiola sai o toiro,
De um salto o jovem
Sobe a alta tapada
E junta-se à namorada.
E o rapaz dos cestos
Grita o seu pregão
- Olha a pipoca,
favas e milho torrado!
E a bela bifana, na tasca
E das varandas
Ecoam gargalhadas
Sobre o colorido arraial...