quarta-feira, 17 de março de 2021

 Miguel Torga e a minha ida à Feira da Ladra

Num Sábado distante, fui até ao Martim Moniz na baixa de Lisboa, onde apanhei o elétrico 28 para ir até à Feira da Ladra. Ao apear-me deparei-me com a fachada simples e simétrica mas sumptuosa, da igreja ou mosteiro de São Vicente de Fora, com as suas torres aos lados e sobre a entrada as estátuas de São Vicente, Santo Agostinho e São Sebastião, fica à entrada para a Feira da Ladra, na freguesia de São Vicente, concelho de Lisboa, no bairro de Alfama.
Em 1173 São Vicente foi proclamado padroeiro de Lisboa quando as suas relíquias foram transferidas do Algarve.
Este mosteiro começou a ser construído em 1582 no local onde D. Afonso Henriques havia mandado construir um primeiro templo em honra deste santo.
Embora o dia estivesse chuvoso, frio e com pouca afluência, lá fui deambulando por entre as várias bancas e barracas até que, numa banca de alfarrabista, encontrei um livro de Miguel Torga, um escritor de quem gosto muito! A 12ª edição de "Contos da Montanha", lá regateei o preço e acabei por comprar. O que é engraçado é que o mesmo incluía o prefácio à segunda edição, escrito em 1945, um prefácio à terceira edição feito em 1952, e um à quinta edição de 1966.
O que me chamou a atenção foi o prefácio à segunda edição quando Torga dizia:
"Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medraram as raízes deste livro, encontrei tudo como deixei quando escrevi a primeira edição. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero. Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos". Isto em 1945, não era eu ainda nascida! Palavras proféticas…
Pensando bem, em 2021 poder-se- ia reescrever Torga fazendo umas ligeiras substituições:
Corre neste país um vento desolador de miséria, corrupção, desrespeito e desamor que não deixa florir os cravos de Abril, nem viver com dignidade…
Ercilia Borges, Maria Jose Morais e 15 outras pessoas
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domingo, 14 de março de 2021

De nariz "empinado"

 Sem eira nem beira:
















Estes últimos dias, quando vou a Angra, tenho andado de nariz " empinado" que é como quem diz de nariz levantado. Não penses que me deu algum ataque de "importancite" aguda, não, nada disso, não sou pessoa para essas coisas, sempre fui e sou uma pessoa simples e que olha os outros de igual para igual, contudo, há um responsável por esta minha singular atitude que é o velho ditado, ou a velha expressão,  que me tem andado a "bailar" na cabeça - " Sem eira nem beira"
Vi muitas vezes o meu pai pôr ao sol, numa eira improvisada, junto da nossa casa, os cereais e legumes que, quando secos eram batidos com um mangual que, depois de separados da respectiva casca, eram guardados em lugar seco para serem usados posteriormente, este é o  meu conhecimento empírico, cientificamente eira é uma palavra que  vem do latim "area" que é um terreno de terra batida, de considerável extensão.
Beira é a extensão do telhado portanto, quem não tinha "eira nem beira "isto é , não tinha casa, não tinha modo de vida, não tinha fonte de rendimento, estava na penúria, era um miserável e , segundo os antigos, era um mau partido para as suas filhas casadoiras!
Numa segunda versão diz-se que se dava o nome de eira   à extensão do telhado e que, quanto mais posses tinha o dono da casa, mais eira, isto é, mais camadas de telha ele incluía no beiral, os mais pobres, como disse anteriormente, não tinham condições construíam uma só fiada de telhas no beiral e então ficavam sem eira nem beira, só tribeira .
Foi para constatar este facto, que andei de nariz empinado, para olhar os beirais da nossa cidade, que nas casa mais antigas e naturalmente de gente abastada, ao tempo da sua construção, têm a cimalha, penso que para proteger as características varandas, das chuvas, depois a beira e a tribeira conforme podes ver pelas fotos.
Agora diz-me, se só se encontram coisas se andarmos a olhar para o chão, a olhar os beirais também se encontram ensinamentos.
Boa semana e Deus nos livre de nos encontrarmos no mundo sem eira, nem beira, nem pé de figueira!

sexta-feira, 12 de março de 2021

 

Peças vintage










Hoje, ao descascar e picar cebola para  preparar o almoço,  os  meus olhos lacrimejando  olhavam  para a casca amarelada e brilhante da cebola fazendo-me  lembrar de um vidro que adoro.
O vidro casca de cebola  que é muito procurado por coleccionadores e  apresenta-se em  lindíssimas peças vintage  como cachepots, garrafas,  jarras e conjuntos para água e vinho. No início do século passado, talvez na década dos anos vinte, o vidro branco transparente era tratado quimicamente de  modo a adquirir o tom da casca de cebola que depois podia ser gravado ou tratado com  jactos de areia que lhe conferiam artísticos desenhos.
Tenho uma pequena colecção de peças deste vidro que conservo religiosamente porque elas me lembram o passado  tranquilo,  tornando-o em simultâneo presente e  permanente.
 Elas dão-nos um toque de eternidade porque indiferentes ao passar dos anos, às modas, tempestades e convulsões do presente conservam a sua calma e dignidade e desafiam  os espíritos conturbados que não valorizam o requinte do pormenor.









quarta-feira, 10 de março de 2021

 As reflexões da Clara:

A respeito de felicidade:
Às vezes, ponho-me a pensar, porque é que me considero uma pessoa feliz, chegando mesmo a interrogar-me, se em caso de querer, teria a possibilidade de encontrar a infelicidade…
O problema é que eu não quero ser infeliz, agarro-me de tal forma às boas recordações e ao que tenho, no momento, de bom, que sinto assim como que uns sininos a repicar dentro de mim, como que a felicitar-me, pelo esforço que faço para encontrar a felicidade, nas pequenas coisa que vêm até mim.
Não procuro nada de extraordinário, pois através da experiência que tenho, sei que as coisas que nos dão profundo prazer e felicidade como por exemplo .a maternidade, o casamento ,o amor, o trabalho, também nos trazem responsabilidades e até riscos de perda , o que nos levará à infelicidade.
Portanto, não vou em voos de grandes altitudes , basta-me ser possuidora de uma rudimentar capacidade de sentir prazer nas coisas simples e comezinhas da vida .
Esforço-me diariamente para valorizar a possibilidade que tenho de viver como, onde e com quem quero, a saúde, a companhia de quem gosto ou dos meus amigos, os momentos de solidão, que prezo muito, e depois a alegria dos reencontros, enfim os mais variados momentos que embora simples ou insignificantes fiquem registados no meu coração, como um bom momento.
Depois de longa caminhada, concluí que o importante é ficar agradada e grata com aquilo que se tem e não esperar da vida coisas impossíveis… Não é a riqueza, nem o sucesso que nos vai trazer a felicidade, mas sim a maneira como lidamos com a nossa vida, com o que temos, com os que nos rodeiam, com o que nos acontece, valorizando sempre o que nos foi proporcionado, por muito pouco que seja!

segunda-feira, 8 de março de 2021

Em dia da Mulher

 

Pela boca morre o peixe:

Este provérbio, tão bem conhecido de todos nós, tem a ver com bocas, sim bocas, grandes ou pequenas, bonitas ou feias, novas velhas ou nem tanto assim, e reporta-nos a situações de pesca profissional, desportiva, ou artesanal em que o pescador coloca o isco no anzol para atrair o peixe que  atraído pela cor, cheiro, ou pelo instinto de sobrevivência, abre a boca e zás, é logo fisgado e, era uma vez um peixe, isto  lembra-nos que do mesmo modo que o peixe abriu a boca e comeu o que não devia, também nós muitas vezes abrimos demasiado a boca, dizemos o que não devíamos e depois pronto, as palavras são como o vento e não voltam atrás...
Pois eu, à semelhança dos peixes, quando era nova, abria demasiado a boca e criticava as senhoras que gostavam de se enfeitar demasiado com colares, brincos e outros adereços ao gosto da época.
- Parecem árvores de natal - dizia.
- É porque gostam - respondia a minha mãe.
Bem, o tempo foi passando, o meu gosto mudando, e agora us tudo o que tenho, para não morrer sem usar as minhas coisas, justifico-me. A situação chegou a tal ponto que, actualmente , gosto de usar sempre, na lapela do casaco um apontamento  que vou variando conforme a ocasião.
Agora já não critico, calo-me muito bem caladinha, porque me lembro sempre deste provérbio e de outro relacionado com o assunto em questão: 
- até velho se aprende!
E eu aprendi que é bom manter a boca fechada, ou falar com moderação, mas  também que, na nossa caminhada pela vida fora deixamos pegadas  de vários tipos, algumas são quase invisíveis, outras  nas quais nem reparamos, mas que constituem o sentido da nossa vida , e uma das características da minha vida, da minha caminhada, do meu ser, é esta fantasia que foi desabrochando no meu interior e que parece que se alonga, que se alastra, que se desdobra com a idade.  
Sendo dia da mulher, embora tenha plena consciência de como ele começou e a importância que tem na sua essência, e porque todas as mulheres gostam de se alindar, de se enfeitar, de ser "coquetes", mostro-te os meus "broches" francesismo que eu prefiro substituir por pregadeira ou alfinete de peito, expressões bem portuguesas  que ficam bem ao peito de qualquer mulher, em Jeito de votos de que tenhas passado um bom dia e lembrando  que para vencer na vida não precisamos de deixar de ser mulheres, femininas, temos é de ser fortes, lutadoras e sabermos o que queremos!













domingo, 7 de março de 2021

 

Ser Mulher…


Ser Mulher
Ser Mulher
É ser um mundo
Que gira à volta de Todos,
É ser profundo
Que entende os pensamentos,
É navegar
Contra e a favor dos ventos,
É alcançar
Porto seguro
E levar consigo os outros,
É ser agente
De paz, amizade e afectos,
É ser um ser
Que os seus filhos ensina
A construir o próprio mundo,
 É ser tão fundo
Que segue dos filhos os passos
Do princípio até ao fim,
É saber pintar o feio
De delicadas tonalidades,
Para o mundo transformar
Em leito macio e ternurento
Onde se possa viver
Uma verdadeira aventura,
Toda a força da ternura,
Amor, delicadeza, verdade
E onde não haja maldade!

Clara Faria da Rosa

 

De meninas a mulheres

E as meninas
Sorriram,
Sonharam,
Desabrocharam,
Cresceram,
Aprenderam
Floriram,
Amaram,
Deram-se
E agora mulheres
Esperam, exigem, reclamam:
Que a vida lhes sorria,
Que a vida as recompense,
Que a vida  lhes floresça,
Que a vida lhes seja leve,
Por todas as amarguras,
Por todas as dores,
Por todas as lutas,
Por todas as aprendizagens,
Por todas as lágrimas,
Por todas as dádivas!!!

Clara Faria da Rosa

7/03/2021 - Dia da Mulher
à minha amiga Lulu,
Uma amiga de sempre e para sempre e uma grande Mulher
a quem muito devo.

terça-feira, 2 de março de 2021

Chapéu à Zamparina

 Como todos os que me conhecem bem sabem, adoro chapéus, de Inverno de Verão de palha ou de feltro, não interessa é um chapéu...Aqui é que entra a história de que te quero falar:

Num dia invernoso saí de chapéu, um lindo e airoso chapéu de feltro de um verde garrafa muito escuro e fui visitar uns amigos que ao chegar me disseram:
-Estás muito bonita, com o teu chapéu à zamparina!
Fique admirada sem saber se o comentário era elogioso ou depreciativo. Então, decidi investigar o significado e a origem da expressão, pois hão-de chamar-me nomes mas eu ao menos hei-de saber o que querem dizer! Sou assim, curiosa...
À zamparina quer então dizer:
De forma atabalhoada, coisa mal feita, mal amanhada, mas também correspondia, em tempos idos, e em linguagem de moda à forma como se usava o chapéu ligeiramente inclinado para a frente, cobrindo um pouco a orelha direita, uma forma inusitada de usar o chapéu nos séculos XVIII e XIX.
E a responsável de tudo isto, quer dizer, desta expressão, é a senhora cuja gravura mostro que foi uma muito famosa cantora de ópera que veio de Veneza para Portugal em 1772, no tempo do Marquês de Pombal Chamada ANNA ZAMPERINI, uma figura muito controversa que ficou famosa pelos seus dotes artísticos, teatrais e musicais, pela sua irreverência, inusitada à época, e pelo seu poder de sedução que incluía o uso do chapéu inclinado. Parece que Anna Zamperini se enamorou do filho do Marquês de Pombal o qual desagradado com este romance a mandou atabalhoadamente de volta para a Itália e interrompeu a contratação de mulheres estrangeiras, para dançar e ou cantar nos palcos portugueses.
Assim, e concluindo, passou a chamar-se a forma como se usa o chapéu mas também uma coisa feita de forma atabalhoada isto é a forma como foi feita a expulsão da cantora Anna Zamperini de Portugal.
E cá estou eu numa tarde soalheira, mas fria, do final de Janeiro, passeando pela baixa de Lisboa com o meu chapéu à zamparina , que agora já sabemos que é à "Zamperini" 
Enquanto passeava ia pensando, também, se Anna Zamperini teria passeado com o seu amado, o filho do marquês de Pombal, por aquelas ruas, o que terá sido pouco provável, devido ao caos que se vivia na altura com a reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755