sábado, 21 de setembro de 2019

No Dia Internacional da Paz
A Paz é luz que aquece,
Ilumina, e engrandece...
A Paz é luz que nos guia,
Na caminhada dia-a dia.
A Paz faz-se na estrada,
Faz-se do tudo e do nada...
A Paz faz-se à volta da mesa,
Na rua, na escola e em casa.
A Paz faz-se na esperança,
No perdão, na tolerância,
E também na temperança.
A Paz não é arrogância,
É flor, é simples criança,
E amor em abundância!
Clara Faria da Rosa
21/09/2019
(Dia Internacional da Paz)

domingo, 8 de setembro de 2019

Do sótão da minha infância


Por estarmos no mês do regresso à escola, voltei ao sótão da minha infância!
Preparava-me para entrar na escola primária, como então se chamava, no dia 1 de Outubro, e assim iniciar o meu percurso académico, à altura não havia infantários, nem prés, nem nada dessas vantagens actuais, a que as pessoas de tão corriqueiras, já nem lhes dão o devido valor.
A minha mãe já me havia preparado a minha mala de cartão, não a da cantora, com o livro, um caderno de folhas de duas linhas, uma pedra com a sua esponja, como apagador, e o respectivo lápis e já me tinha feito a bata branquinha, pois à altura era assim, a bata nivelava e tapava as misérias ou necessidades, comprara-me também uma caixinha redondinha em alumínio, para eu levar um lanchinho para os intervalos, pois viria almoçar a casa.
Muito previdente, a minha mãe, lembrando-se que " a luz que vai à frente é que ilumina", resolveu matricular-me o mês de Setembro na chamada "escola paga" , como então se dizia, para eu já ir um pouco preparada para a escola e não ter problemas de adaptação.
Lá vai a Clarinha, toda contente, com o seu avental com muitos folhos, um grande laço na cabeça, e a sua mala recheada de tesouros, para a escola da Professora Rita,que era uma regente em quem a minha mãe, e outras pessoas confiavam muito no aspecto pedagógico, chegando lá, encontra muitos alunos sentados em pequenos banquinhos à volta de uma sala e a professora, muito profissional, a chamar os nomes que tinha registado na sua lista:
- João,-presente, responde a criança!
-Maria, -Presente,
- Ilda,-presente,
-presente,
-presente,
- presente, vão respondendo as crianças à chamada!
Eis se não quando, grande berreiro na sala, todos espantados sem saber o que se passava, era a Clarinha que chorava aflita por não ter levado um presente para a professora, pois só conhecia a palavra no sentido de oferecer algo a alguém quando a mãe lhe dizia:
-Vai levar este presente à vizinha, ou à tia, quando havia carne, fruta, hortaliças, batatas, ou algo mais para partilhar.
Já agora mostro-te a caixinha de alumínio que já tem sessenta e cinco  anos, para mim é uma relíquia, que eu levava para a escola, com os mimos que a minha mãe preparava, biscoitinhos e roscas feitos com a manteiga que se tirava do leite, depois de fervido, figos passados, pão com doce de uva, um ovinho cozido, fruta descascada e partida eu sei lá... os sabores, cheiros e recordações que, neste momento, me estão povoando a memória!


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Meu lar, meu cantinho:
Cantinho da minha casa,
Silêncio doce e profundo
Bendita a porta da rua,
Que me separa do mundo!

Numa feira de antiguidades, ao apreciar uma bancada de feirante, os meus olhos bateram num pequeno prato de louça de Alcobaça, que mostrava a quadra que acima transcrevo e que me ficou a martelar na cabeça de tal modo, que tive que voltar atrás e discutir o preço com o feirante, para o comprar. É que a quadra teve o condão de me pôr a pensar e de avivar as saudades que eu, estando ausente, já tinha de casa. 
Não há nada como o aconchego da nossa casa, do nosso cantinho, onde estão aqueles de quem gostamos, as nossas coisas e as nossas recordações e onde após fecharmos a porta da rua nos sentimos em segurança, longe do bulício e dos perigos do exterior.
Estando longe é que percebemos a sério o valor da palavra "lar" a palavra que exprime o lugar onde amarramos uma das extremidades do fio da nossa vida, pois mesmo que o abandonemos, estaremos sempre a ele ligados, pelo coração, pelas recordações e especialmente pelas saudade.



Vão-se lá entender os adultos! 

Estes são os meu avós maternos Maria Borges de Meneses 1895-1969 e António Machado de Almeida 1880-1949 que viveram e criaram os seus filhos em Santa luzia da Praia da Vitória, ilha Terceira. Por agora serem as festas nesta localidade, deu-me para pensar neles, sobretudo na minha avó pois do meu avô não tenho memórias, por ter falecido, tinha eu um ano.
Ia sempre passar as festas para casa da minha avó, o que para mim era uma alegria, pois era também uma oportunidade de conviver com os meus primos.
Guardo na minha memória muitas histórias desses tempos e hoje lembrei-me especialmente que no dia da procissão, depois do jantar, a minha avó vestia a sua casaca de brocado preto e a sua saia castanha, ajeitava o seu pelo com ganchos de osso e alisava bem o cabelo que prendia com bonitas travessas, punha a sua sombrinha no braço, pegava no missal e no seu terço e lá me levava a reboque para a missa - de - festa e sermão.
Era um martírio para mim, porque a avó era do tempo em que não havia carros e, por isso, tinha tendência para andar no meio da estrada e eu tinha que estar continuamente a puxá-la para a berma da estrada pois os carros dos americanos da base da Lajes, ali ao pé, quase no quintal, ferviam!
Na igreja era só gente de idade e adultos, as roupas cheiravam a naftalina e eu , aos pés da minha avó, sentada no pequeno banquinho de ajoelhar, olhava para o púlpito, para os torneados de madeira com uns anjinhos todos pretos, até as asas, e para o pregador, atónita, sem perceber nada, mas parecendo-me, a certa altura, perceber que ele ameaçava os presentes! Mas porquê se eu até fazia tudo o que me mandavam e rezava à noite as minhas orações?
- Avó, ele está zangado comigo?
-Cala-te rapariga, isto não são assuntos para ti!!!
Vão-se lá entender os adultos...

domingo, 1 de setembro de 2019

Procura:

Olho o teclado e procuro:
Procuro o A que escreve amor,
Procuro o A de amizade,
Procuro o grito que exprime a dor,
Ao saber tanta maldade!
Procuro, 
Procuro,
Procuro...
E apago e corrijo e reescrevo:
A tolerância que afasta a dor,
O L de livro e liberdade,
A flor no seu esplendor,
A paz na nossa cidade!

Onde Deverei procurar?
Quanto terei de esperar?
Para encontrar neste teclado,
Dentro de mim e no mundo,
O sorriso que nos aquece,
A mão que se estende,
O ódio que se esquece
E o erro que se entende?...
Procuro, apago, corrijo e reescrevo!

 Clara Rosa
01/09/2019


sábado, 31 de agosto de 2019

Quando a linha da vida se parte:

É, desde sempre, que me lembro desta caixa, no canto do estrado, na minha casa das Lajes; Era o trabalho leve da minha mãe! 
Aos Domingos íamos à missa, almoçávamos, a minha mãe levantava a mesa e lavava a louça e, como não se trabalhava ao Domingo, ela sentava-se a fazer um trabalhinho leve, o seu crochet... a minha mãe sempre foi uma mulher determinada que se deu à vida e ao trabalho, não era ociosa nem sequer tinha passatempos, estou em crer que ela nem conhecia esta palavra: Passatempo...
E sempre foi assim, até ao fim, de tal modo que quando faleceu, andava a fazer uma renda para um lençol.
Partimos, mas as coisas ficam, e lá ficou a caixa, abandonada no canto do estrado, como se também tivesse perdido a vida .
Ao abri-la, deparei-me com o trabalho inacabado e pensei como a vida é repleta de imprevistos e como nós nunca consideramos que a meta foi atingida, é muito difícil considerar que a nossa actividade terminou, só se por infortúnio do destino, isso acontecer inesperadamente, como foi o caso.
Num rasgo de saudade e de impotência, perante a dura realidade, emoldurei, como recordação, o trabalho inacabado assim como a farpa com que a minha mãe fazia o seu crochet.
Já lá vão muitos anos, contudo ao olhar para estes objectos lembram-me sempre, naturalmente, a minha mãe e, como é efémera a linha que nos agarra à vida, a qual pode ser quebrada a qualquer momento.
É por isso, para que tenhamos esta realidade sempre presente, que conto esta história de uma mulher que "crochetou" a vida com muita garra e determinação, até que a linha se quebrou!




segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Com vinagre não se apanham moscas!
Sempre que, nas andanças pela minha casa, os meus olhos dão com esta lindíssima peça que, à primeira vista parece uma licoreira, penso no ditado antigo:
- "Com vinagre não se apanham moscas", porque afinal, este utensílio em forma de garrafa de vidro transparente, muito fino, bojudo, com ressalto no fim do gargalo alongado e que apresenta uma reentrância, no fundo, para o interior, aberta na parte central, possuindo três pequenos pés em vidro e uma rolha também de vidro, muito elegante, é um mosqueiro dos princípios do séc. XX no qual se introduzia uma substância doce e pegajosa, de preferência, que atraía as moscas que lá ficavam presas. Penso que a rosca no gargalo servia para se pendurar com um barbante no tecto e lá ficava, o dito cujo, à espera das moscas...
Pois é, ao olhá-lo, dou comigo a dizer para mim própria:
-Clara, deixa-te de azedumes, pois a vida é como um mosqueiro, não se compadece com azedumes que só atraem dissabores, inimizades e mal-estar afinal até as moscas são atraídas pela doçura, embora isso seja nefasto para elas!
De qualquer modo, cuidado com os azedumes constantes e especialmente com algumas moscas impertinentes...





sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Os Dons do Espírito Santo:


































Embora extemporâneo, não posso deixar de registar a alegria que sentimos, faz hoje precisamente  dois meses, ao levarmos na coroação das Bicas de Cabo Verde, São Pedro de Angra do Heroísmo a corôa comprada com o fruto do nosso trabalho a ser benzida após a missa da coroação. A comissão irmanada por esta devoção centenária, e crente que os dons do Divino Espírito Santo são o esteio que ajudará a levar os açorianos, continentais e o mundo em geral a bom porto e a uma vivência sã dentro dos valores que nos foram legados pelos nossos antepassados, numa atitude de partilha deste entendimento, que ao longo do ano foi tratado, imprimiu em fitas estes valores que irradiavam da corôa e que cada elemento transportava conforme podes ver pelas fotos.
Sabedoria, Entendimento,  Conselho, Ciência, Piedade, Fortaleza, Temor de Deus - Os dons do Espírito Santo que precisamos caiam sobre nós !

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

                                                     
 No meu septuagésimo primeiro aniversário

Eu vos dou graças Senhor
Pelos meus setenta e um anos
Sinto-me muito feliz e grata,
Por tudo o recebido
Por uma vida completa...
Pelos meus setenta e um anos
Agradeço e dou vivas,
Pelo carinho amor e saúde
Nos meses semanas e dias...
Pelos meus setenta e um  anos
Humildemente louvo o Senhor,
Pelas dores tristezas e mágoas
Ingratidões e faltas de calor...
Pelos meus setenta e um anos
Prometo, firmemente, Senhor,
Ser forte e corajosa
E fazer da vida louvor...
Pelos meus setenta e um  anos
Prometo ainda Senhor,
Colorir e alegrar os meus dias
E dos que estão ao meu redor...
Pelos anos que me restam
Muitos ou poucos? Não sei,
Lutarei com todas as forças,
Farei da bondade lei
E pela vida darei graças!

12/08/2019
Clara Faria da Rosa 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

14 de Junho Vila das lajes em festa

A Vila das Lajes

 Localidade que me viu nascer em 1948, à altura freguesia, faz parte das freguesias do Ramo Grande, no concelho da Praia da Vitória, Terceira, Açores.
 Pelas suas pedreiras escuras e porosas, donde foram extraídas grandes e numerosas cantarias aplicadas na construção de casas, igrejas, ermidas, poços e ladrilhos na freguesia e arredores, adquiriu este nome, LAJES.
Nesta freguesia predominava a agricultura com especial incidência para a cultura do milho e do trigo pelo que se denominava o celeiro da ilha. Ainda tenho presente na memória o chiar dos carros de bois carregados de molhos de trigo a serem transportados para as debulhadoras. O trigo assim como as lajes estão representados na sua heráldica como se pode ver no brasão aqui inserido. Grande parte dos terrenos onde se faziam essas culturas, no lugar das Bugias, foram expropriados para aí se construir a Base aérea das Lajes.
Possuindo, na localidade, uma casa que era pertença dos meus pais, passo por lá muitas vezes tendo, numa delas,  revisitado calmamente a igreja datada de 1546, onde me baptizei , crismei e casei, onde frequentei a catequese no tempo do saudoso padre Gregório Rocha, lembrado numa lápide existente na casa dos Espínolas, junto à igreja. Volvido muito tempo, observei este templo com outros olhos, apercebendo-me de pormenores que à data me escapavam .
Pela janela do baptistério entrava uma réstia de luz que me transmitia uma sensação de calma e paz. Os andores esperavam ser decorados para a procissão que se faria no primeiro domingo de Outubro, São Miguel Arcanjo estava sem asas e a Senhora do Rosário assim como o menino estavam despojados dos respectivos  rosários, Santa Teresinha já segura ternamente o seu ramo de flores, São Pedro Já comanda o seu barco, São Sebastião encostava-se à árvore onde seria sacrificado, o porquinho dormia junto a Santo Antão, São José segurava ternamente o menino e pairava no ar um clima de preparação, limpeza e ordem que me segredava que quando chegasse o dia e a hora, tudo e todos estariam a postos!

Foi esta postura, creio eu, calma, serena e ordeira, transmitida pelos inquilinos da igreja lajense, que   contagiou os lajenses tornando-os fortes, ordeiros, competentes, voluntariosos, lutadores, contornando obstáculos que levaram a sua freguesia ao patamar em que hoje se encontra que lhe  permitiu guindar-se à categoria de vila, o que muito honra a sua população  que está festejando o aniversário da sua elevação a Vila das Lajes ,que gostosamente saúdo!

terça-feira, 11 de junho de 2019

Confeitos terceirenses em dia de bodo:
Nos domingos de Pentecostes e da Trindade, ditos dias de bodo,na despensa e no império situados junto à igreja, as raparigas casadoiras acotovelavam-se nas janelas a ver os namorados que sorrateiramente lhes ofereciam, num gesto mimoso e requintado, lindos embrulhos de papel de seda, com deliciosos confeitos, guloseimas feitas de sementes ou pevides cobertas de açúcar, preparado em xarope e seco ao fogo, a palavra é um substantivo que vem do latim ( confectu ) e o adjectivo "confeitado" significa coberto de açúcar.
Fazendo uma pequena pesquisa concluí que há por esse mundo fora muitas receitas desta guloseima, de todas as cores, feitios, formas e sabores...
Mas, que que Deus me perdoe, para mim, não há confeitos melhores do que os da ilha Terceira, Açores, fabricados pela firma Basílio Simões e filhos, em Angra do Heroísmo.
Macios, branquinhos como véu de noiva e aromatizados com sementes de funcho, deixam na boca um sabor a tradição, a Domingos de Bodo, quando era hábito os rapazes oferecerem às raparigas grandes pacotes desta guloseima e a mesas de função, salpicadas do branco dos confeitos que os convidados metiam nos copos para adoçar o tradicional vinho de cheiro dos Biscoitos.
Quem me dera ter recebido, neste domingo da Trindade, um pacote de confeitos que me dariam a sensação de ter voltado aos meus tempos de juventude em que os sonhos se embrulhavam em papel de seda e tinham o sabor dos nossos mimosos e tradicionais confeitos.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Beber água do poço:

Esta manhã faltou água , na minha zona, por curto espaço do tempo, talvez para trabalhos de manutenção da rede pública, não sei ao certo, o que sei é que fiquei nem uma barata tonta sem saber o que fazer...
Vai daí, que me veio à memória, os tempos em que eu ia com a minha mãe ao poço tirar água, que depois transportávamos para casa em grandes baldes, cada uma do seu lado, numa agradável cumplicidade a ver se não derramávamos nada porque, naquela altura, água era ouro e ao chegar a casa era muito poupada, não era como agora que se deixa a torneira a correr e se gasta imensa só para lavar os dentes!
Também me lembrei do Senhor Teotónio Meneses, um Senhor que tinha uma casa com loja por baixo na praça em frente ao lar D. Pedro V, na Praia da Vitória onde a minha mãe ia fazer compras e do diálogo que se travou entre os dois:
- Então como vai a pequena nos estudos?- já se sabe que a pequena era eu!
-Vai indo devagarinho- respondeu a minha mãe que não era de muitos superlativos, nem de fazer grandes alardes dos resultados que eu porventura obtivesse, porque ela considerava que eu não fazia mais do que a minha obrigação...
-Ela vai conseguir- dizia o Senhor- E sabe Porquê? perguntava ele para a minha mãe ,de olhos curiosos, postos nele:
-Porque bebeu água do poço!!!
Agora era a minha vez de comentar, com os meus botões, porque na minha insignificância, não me atrevia a fazer parte daquela filosófica conversa de adultos:
-O que tem a água do poço a ver com os meus êxitos escolares???!!!!
Passaram-se os anos já não estão entre nós os interlocutores deste curioso diálogo e hoje, porque faltou água em casa dei por mim a pensar nisto tudo e a concluir que temos que saber tirar partido da situação que vivemos, até mesmo da escassez, e temos que parar e pensar que os nossos problemas não são assim tão terríveis como parecem e tornam-se mais fáceis se os encararmos de uma forma aceitável .
A arte de saber viver está no facto de nos concentrarmos nas nossa dificuldades, aceitando-as e resolvendo-as da melhor maneira possível e assim nos tornamos auto-confiantes, fortes e serenos perante a vida.
Agora é que eu percebo como foi bom para mim, acartar e beber água do poço!

Beber água do poço:

Beber água do poço:
Esta manhã faltou água , na minha zona, por curto espaço do tempo, talvez para trabalhos de manutenção da rede pública, não sei ao certo, o que sei é que fiquei nem uma barata tonta sem saber o que fazer...
Vai daí, que me veio à memória, os tempos em que eu ia com a minha mãe ao poço tirar água, que depois transportávamos para casa em grandes baldes, cada uma do seu lado, numa agradável cumplicidade a ver se não derramávamos nada porque, naquela altura, água era ouro e ao chegar a casa era muito poupada, não era como agora que se deixa a torneira a correr e se gasta imensa só para lavar os dentes!
Também me lembrei do Senhor Teotónio Meneses, um Senhor que tinha uma casa com loja por baixo na praça em frente ao lar D. Pedro V, na Praia da Vitória onde a minha mãe ia fazer compras e do diálogo que se travou entre os dois:
- Então como vai a pequena nos estudos?- já se sabe que a pequena era eu!
-Vai indo devagarinho- respondeu a minha mãe que não era de muitos superlativos, nem de fazer grandes alardes dos resultados que eu porventura obtivesse, porque ela considerava que eu não fazia mais do que a minha obrigação...
-Ela vai conseguir- dizia o Senhor- E sabe Porquê? perguntava ele para a minha mãe ,de olhos curiosos, postos nele:
-Porque bebeu água do poço!!!
Agora era a minha vez de comentar, com os meus botões, porque na minha insignificância, não me atrevia a fazer parte daquela filosófica conversa de adultos:
-O que tem a água do poço a ver com os meus êxitos escolares???!!!!
Passaram-se os anos já não estão entre nós os interlocutores deste curioso diálogo e hoje, porque faltou água em casa dei por mim a pensar nisto tudo e a concluir que temos que saber tirar partido da situação que vivemos, até mesmo da escassez, e temos que parar e pensar que os nossos problemas não são assim tão terríveis como parecem e tornam-se mais fáceis se os encararmos de uma forma aceitável .
A arte de saber viver está no facto de nos concentrarmos nas nossa dificuldades, aceitando-as e resolvendo-as da melhor maneira possível e assim nos tornamos auto-confiantes, fortes e serenos perante a vida.
Agora é que eu percebo como foi bom para mim, acartar e beber água do poço!

terça-feira, 4 de junho de 2019

Almoço da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo


Aqui estamos nós, mais um ano, no almoço dos irmãos  da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo. Gosto imenso deste acontecimento pelo que representa em termos de tradição e de espiritualidade mas também pelo convívio pois neste dia encontramos muitos conhecidos e amigos que já há muito não víamos. 
Foi muito agradável, a comida estava boa, tudo muito bem organizado e decorado não faltando os  confeitos para adoçarem o vinho de cheiro conforme é tradicional.
Um dos momentos altos foi o cortejo com o provedor e mesários  a levarem as coroas seguidos pelas mordomas que tiveram a seu cargo a organização de uma semana de festas que culminou com este lauto e tradicional almoço.
O provedor dirigiu oportunas palavras aos presentes e agradeceu a todos os que prestaram a sua colaboração para que tudo tivesse o brilhantismo verificado, enquanto eu, mentalmente, lembrava os irmãos idosos que ficaram retidos na casa por doença prolongada ou por dificuldade de mobilidade e pensava que muitos dos presentes, incluindo eu, logo logo estaremos lá... Entretanto, vamos vivendo e sorrindo pois o sorriso é como que um brilho que ilumina as nossas vidas e as dos outros.

domingo, 26 de maio de 2019

O meu açafate restaurado:

Pão do bodo...

No dia que antecedia os Domingos do Espírito Santo e  da Trindade a minha mãe levantava-se bem cedo, para fazer a amassadura e cozer o pão para o bodo. 
Quando os encarregados de distribuir o pão no bodo, os chamados mordomos, tinham passado a pedir, os meus pais haviam-se comprometido a colaborar com um determinado número de pães, havia quem desse dinheiro, mas os meus pais gostavam de continuar as tradições...
Depois do forno bem quente lá ia o pão muito bem tendido, com as suas cabeças airosas, para o forno, e a minha mãe deitava nas brasas uma mão de sal e dizia:
- Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus te acrescente! 
E lá ia o pão crescendo, enquanto a minha mãe vigiava não fosse ficar muito escuro, pois era coisa de responsabilidade!
Enquanto isso preparava-se o açafate, um lindo cesto redondo de vimes finos sem tampa e sem asa, que trouxe da minha casa das Lajes muito maltratado, com xilófagos, a tal palavra científica para o popular caruncho, que  foi restaurado pelo nosso amigo Carlos Duarte Martins, com um produto apropriado, e  outras técnicas que desconheço.
 Era então altura de se abrir a arca e de se retirar uma linda toalha branca, com uma artística barra de renda, do enxoval da minha mãe e lá se punham os pães na vertical, muito encostadinhos uns aos outros, com a cabecinha de fora e a minha mãe, num gesto de requinte, ia à roseira do quintal e apanhava as melhores rosas, que ela chamava rosas do bodo, por florirem naquela altura, para decorar todo aquele mimo, toda aquela doação, todo aquele gesto de cidadania, palavra que eles desconheciam embora soubessem e levassem bem a sério o facto de que deviam contribuir para que a tradição não se perdesse e para que todas as pessoas que passassem no bodo  da  à altura freguesia hoje vila das Lajes. tivessem o seu pão.
E lá ia o meu pai, com o açafate às costa, para a despensa, entregar o pão que, em conjunto com o das outras famílias e com o que o mordomo tinha cozido, seria distribuído, no bodo a todas as pessoas que por lá passassem.
O que os meus pais não imaginavam é que passados tantos anos o seu gesto o seu açafate iriam ser  lembrados com tanto apreço e saudade. 




segunda-feira, 20 de maio de 2019

Churrasco Primaveril:

A comissão de festas do Império de Bicas de Cabo Verde em São Pedro de Angra levou a cabo, no passado domingo, um  agradável encontro a que deu o nome de churrasco primaveril, no qual recebeu duas centenas de pessoas.
A matança do porco  para o churrasco, e a cozedura de pão de trigo e de milho  foram tarefas trabalhosas mas que nos deram alegria pelo facto de conseguirmos levar a cabo trabalhos que já não fazem parte da nossa rotina.
Caldo verde bem quentinho, febras, sardinhas assadas, batatas cozidas, saladas, pão caseiro sobremesas variadas, as mesas postas e pronto abriram-se as portas para receber os que quiseram vir passar connosco  uma belíssima tarde primaveril . Agradecemos a todos a presença amiga e desejamos que se tenham divertido, quanto a nós fizemos os possíveis...