quinta-feira, 2 de setembro de 2021

 Meu lar, meu cantinho:

Cantinho da minha casa,
Silêncio doce e profundo
Bendita a porta da rua,
Que me separa do mundo!
Numa feira de antiguidades, ao apreciar uma bancada de feirante, os meus olhos bateram num pequeno prato de louça de Alcobaça, que mostrava a quadra que acima transcrevo e que me ficou a martelar na cabeça de tal modo, que tive que voltar atrás e discutir o preço com o feirante, para o comprar. É que a quadra teve o condão de me pôr a pensar e de avivar as saudades que eu, estando ausente, já tinha de casa. Não há nada como o aconchego da nossa casa, do nosso cantinho, onde estão aqueles de quem gostamos, as nossas coisas e as nossas recordações e onde após fecharmos a porta da rua nos sentimos em segurança, longe do bulício e dos perigos do exterior. Refletindo seriamente percebemos a sério o valor da palavra "lar" a palavra que exprime o lugar onde amarramos uma das extremidades do fio da nossa vida, pois mesmo que o abandonemos, estaremos sempre a ele ligados, pelo coração, pelas recordações e especialmente pelas saudades.




sábado, 14 de agosto de 2021

 

Terceira-Idade!

O que é a terceira-idade?
Fazer-se o que se entende... nunca!
Não é segredo para ninguém que fiz anos no passado dia 12, pois fiz questão de o apregoar bem alto e fui parabaneada por amigos, conhecidos e familiares, o que agradeço do fundo do coração, enfim, passou-se o dia. Contudo, com esta história dos meus anos tenho meditado mais no assunto e para me consolar penso que a idade é como o whisky, quanto mais velho melhor e que os móveis antigos são os mais valiosos.
Tretas! A verdade verdadinha é que segundo várias cabeças pensantes terceira-idade é:
"Quando tudo começa a estalar: cotovelos, joelhos e pescoço".
"Quando percebemos que nunca viveremos o suficiente para experimentarmos todas as receitas que passámos os últimos 30 anos a compilar".
" Quando é não só mais tarde do que pensamos, mas mais cedo do que imaginamos".
"Quando estamos perante duas tentações e escolhemos a que nos leva para casa mais cedo".
E pronto, está tudo dito, resta viver conforme as circunstâncias e conforme a cabeça de cada um ditar!
O que eu te posso dizer, por experiência própria, é que nunca atingimos a idade de fazermos o que bem entendermos, há sempre algo que nos condiciona!!!

Antúrios de Moisés Leal - empresa agrícola,

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

 

O minuto que durou uma vida!


Hoje tenho-me lembrado muito, e já te explico porquê, de uma história que se passou há muitos anos numa classe que eu leccionava na Ladeira Grande, freguesia da Ribeirinha.
-Era uma criança linda, de olhos vivos e sorriso contagioso e doce mas, como todas as crianças e conforme a idade obrigava, era muito irrequieta. Eu, embora percebesse o que se passava com ela,  mas preocupada com a aprendizagem da classe e com o rendimento que deveria apresentar no fim do ano lectivo, irreflectidamente zangada digo:
Isto não pode ser, vais ficar 1 minuto  quieto e sem falar e eu vou estar atenta aos ponteiros do relógio e quando passar o minuto digo!
Lá ficou ele, muito sério, à espera que o tempo passasse até que, não aguentando, mais pergunta:
-Já passou o minuto?
-Não ainda falta um pouco - digo eu.
Ao que aquela criança, na sua inocência, olha para mim, de olhos muito abertos e espantada diz:
-Um minuto leva um tempão a passar, é mais do que um dia!
Fiquei desarmada, com imensa vontade de rir, sentindo uma imensa ternura, por aquele palmo de gente, para o qual o tempo custava imenso a passar. 
Pois eu hoje, dia do meu 73º aniversário, olho para trás e penso que tudo  se passou num minuto, que tudo não foi mais do que o tempo de um suspiro ou de um ai  e que a minha infância e juventude estão ali ao estender da mão...
Pois é verdade, penso, setenta e três ano da minha  vida passaram  num minuto, um minuto vivido com tenacidade e determinação que me ajudaram a ultrapassar temores, limitações, dificuldades, um minuto que me trouxe saúde,alegrias, sonhos, graças e respeito e também tristezas, dissabores e dores mas vivido com naturalidade, tentando sempre fazer-me respeitar , fazer das fraquezas forças , apreciando a caminhada e aceitando os seus obstáculos.
É isso aí! Afinal um minuto ainda deu para fazer muita coisa...  
Vamos a ver os restantes segundos o que me trarão...

Clara Faria da Rosa
12/08/2021
Dia do meu 73º aniversário


 


No meu septuagésimo terceiro aniversário,

Refletindo:

Tenho por hábito, neste dia, refletir sobre o ano que passou e sobre o tempo que está para vir que pode ser muito  ou pouco mas é o que me está reservado, sobre isso  não tenho poder de decisão, só me resta aceitar. 

Sabendo que nunca se é demasiado velho para crescer, isto, como é  óbvio, no sentido do crescimento intelectual, pessoal e social, hoje subo mais um degrau na minha aprendizagem que espero tenha ainda mais alguns patamares pois ainda tenho muito a aprender, a  crescer,  a viver...

Graças a Deus vou-me aguentando, ainda não atingi a fase da rabugice e vou tentando envelhecer com  serenidade e elegância.

Para mim, fazer anos é bom, é sinal que ultrapassamos várias etapas que muitos não tiveram o privilégio de viver.

Viver é viver, existem coisas básicas e valores que nunca se alteram, quanto ao resto tento manter-me atualizada  através da  leitura de jornais, revistas e livros, da televisão e  muitas vezes concluo, com agrado, que o que se usa agora já foi moda na minha juventude

Tenho muita esperança no futuro e nos jovens que ocuparão os nossos lugares pois estão, regra geral, muito mais e melhor preparados do que nós sobretudo em relação ao meio ambiente e à sua preservação.

A idade não me preocupa , mas o  caminho que me leva ao crepúsculo, entretanto sinto-me feliz, pelas minhas faculdades e vou gozando o que a vida me proporciona, com o meu ser interior,  teimoso, que nunca cresce, a querer dizer-me que ainda estou com vinte ou trinta anos ...

Mas como diz o ditado: -Não vale a pena chorar sobre leite derramado! o que lá vai, lá vai, agora resta-me aproveitar tentando viver ao máximo pois ainda tenho muitas pessoas que quero conhecer, coisas a aprender, lugares a visitar e as minhas mãos a estender para ajudar quem precisa de mim, nunca  esquecendo que uma das maravilhas da vida é a própria vida.

E porque é dia de parabéns, plural da palavra parabém, que se formou  da palavra para mais a palavra bem, se me desejares bem agradeço e retribuo pois o que mais quero, meu amigo/a é ver-te bem, feliz e realizado/a.


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

As sombras da vida:

Ponto-de-sombra,

Ao usar este bonito e requintado pano, bordado por mãos diligentes,  habilidosas e ancestrais, lembrei-me de uma bela e ensolarada  tarde de Primavera em que eu acompanhando um grupo de crianças no recreio, reparei num aluno que, afastado dos colegas, fazia movimentos anormais, chegando ao extremo de se deitar na relva de pernas e braços  abertos. Intrigada, perguntei-lhe o que se passava, por que procedia de tal forma, ao que me disse que estava a descobrir se a sua sombra andava sempre a persegui-lo e se cabia na mesma...  Já não me lembro o que lhe respondi, o que é certo é que isso me me marcou de tal modo que, passados tantos anos, ainda me lembro desse dia e desse acontecimento!

Sendo a sombra "Um espaço privado de luz ou tornado menos claro pela interposição de um corpo entre ele e o objecto luminoso", a sombra está sempre lá, embora saibamos que há objectos opacos, translúcidos e transparentes o que dá origem a  vários tipos de sombras, como acontece com o ponto, chamado de sombra, do  bordado que te mostro, feito numa cambraia fina, pelo avesso, podemos ver o bonito efeito, da sua sombra, pelo direito, vai daí que, estando em idade e tempo de reflexões, concluo que as sombras são como as nossas acções, as nossas atitudes, boas ou más, estarão sempre junto de nós, farão sempre parte da nossa vida e até mesmo para além dela! 

Pobre de mim, cujas sombras são por vezes, pouco claras, tristes e muitas vezes deploráveis! Estarei a tempo de retificar atitudes? diz o povo que nunca é tarde para quem quer... Veremos.









 

terça-feira, 20 de julho de 2021

 Duas mães e duas filhas vão à missa com três mantilhas ...


Lembrei-me desta velha adivinha quando, esta manhã, porque o tempo estava chuvoso, decidi abrir uma arca onde guardo roupas antigas, colchas mantas do tear e outras coisas e encontrei, muito bem resguardadas, por causa da traça, estas peças antigas que , para muitas pessoas que, porventura me venham a ler, não dirão nada mas que para mim têm muito significado .

Um xaile com a sua barra lustrosa, um cachené de lã, e uma longa  mantilha de algodão arrendada, tudo preto, tudo negro com devia ser a roupa das viúvas em tempos recuados. Xaile de pontas sobre a cabeça e o cachené, palavra que vem do francês cache-nez  que traduzido significaria, quanto a mim,  esconde nariz  e depois, mais leve, a mantilha que seria usada, também pelas viúvas, toda a vida a quem não era permitido saírem à rua de cabeça descoberta!

Em jeito de brincadeira, pus a mantilha,  só por uns momentos, ia desmaiando, com o calor e o ar abafado e a pensar o que sofreram as nossas antepassadas, sempre caladas e resignadas para não serem faladas... Outros tempos, outras gentes!

E agora, a resposta à adivinha?









domingo, 27 de junho de 2021

Nunca fiando...

 Quando os avós do meu marido vieram da América, bem no início do séc. passado, fixaram residência na freguesia do Raminho, na costa noroeste da ilha Terceira, limitada a leste pela freguesia dos Altares e a oeste pela freguesia da Serreta, numa casa erguida num local alto, calmo e soalheiro onde se vislumbra o Oceano Atlântico com as ilhas Graciosa e S. Jorge no horizonte. Constatando que a localidade precisava de um local que prestasse serviços na área do comércio, abriram uma mercearia ou como então se dizia, uma venda. O tempo foi passando, o avô faleceu e a avó aguentando estoicamente até que, dando a mão à palmatória, teve que abandonar tudo e deslocar-se para junto da filha.

Uma História muito vulgar e comum a muitas famílias e anciãos que, involuntariamente,  se despedem das suas casa e haveres à procura de ajuda e apoio dos mais novos, quem sabe a história não está prestes a repetir-se para muitos de nós!?

Lá ficou a casa vazia, sem alma, a degradar-se até que, estando  em vias de recuperação lá fui com o meu marido e os técnicos competentes, vai daí que os meus olhos deram com um quadro muito maltratado, de fiados e haveres, peça tradicional do início do séc. passado em tudo o que era comércio, que era como que um amuleto para os comerciantes quando instados a fiarem respondiam:

- Aqui não se fia, olha para a parede e vê em que estado fica quem fia!...

Ao olhar aquela estampa lembrei-me dos meus tempos de meninice, do rol que havia nas mercearias, pois os merceeiros fiavam  só às pessoas da sua confiança, que pagavam no fim do mês ou da semana, e das compras que ia fazer a mando da minha mãe, que não tinham nada a ver com as compras que se fazem atualmente. 

Meio Kg de açúcar, um quarto de kg de arroz, petróleo, um pouco de temperos, nem farinha, nem ovos, nem grão, nem manteiga, nem vinagre, nem banha nem frango nem carne, nem leite, nem hortaliças, nem legumes, tudo isso era de casa , tudo isso era fruto do trabalho resiliente, persistente e de muito amor com que os meus pais se dedicavam à vida...

Ai, mas que alegria quando eu tinha 10 centavos e ia à venda do Sr. Guilherme ou do Sr. José Linhares comprar alfarrobas que eram embrulhadas em papel pardo que o merceeiro fechava com um jeito dos dedos que me fascinava! No regresso, os calcanhares batiam-me no rabo de tanto correr para chegar a casa e a minha mãe permitir que eu comesse algumas e guardasse as restantes para outro dia...

Estou a ver, as mãos calejadas, de trabalho, da minha mãe, a alisar docemente, o pedaço de papel pardo que guardava cuidadosamente, na gaveta do louceiro para ser usado novamente... Estou em crer que foi por causa desse pedaço de papel que me ficou este jeito de poupar, guardar, reciclar e de olhar as coisas que, para muitas pessoas são imprestáveis, com uma vontade de lhes proporcionar uma segunda oportunidade, de lhes dar crédito!









quinta-feira, 24 de junho de 2021

 


Saudades,

Ai que saudades eu tenho

De uma gargalhada sentida,

De um bater palmas divertida,

De uma vida colorida,

De sentir a multidão unida...

Ai que saudades eu tenho

Dos bons tempos que já se foram,

Das festas que não vieram,

Dos desfiles com muita gente,

De ver tudo alegre e contente...

Ai, eu tenho esperança e certeza

Que atrás de tempo, tempo virá,

Assim o espero ardentemente,

Em que o meu gargalhar soará

E o meu bater palmas  será estridente...

Ai, eu tenho esperança e certeza

Que aproveitarei cada minuto,

Sempre alegre, sempre a sorrir,

Porque o futuro é imprevisto,

Não sabemos o que está para vir...

Ai, eu tenho esperança,

e quero ter a certeza...

Que quando esse tempo  vier,

Meus olhos estarão abertos,

Para esta alegria viver,

Nas Sanjoaninas,  que voltarão!

CLARA FARIA DA ROSA,

24/JUNHO/2021







sábado, 12 de junho de 2021

 

Santo António o auxiliar nas causas e coisas perdidas


Quando eu era criança, havia o hábito de se solicitar a ajuda de Sto. António
no caso de se ter perdido alguma coisa, ou quando se estava com qualquer problema de difícil solução, na ocasião, prometia-se uma esmola em louvor do santo que se colocava em cima do muro, junto à nossa casa, caso a graça fosse concedida, o objeto perdido aparecesse e, o problema se resolvesse.
Normalmente era um pão que era levado por qualquer pessoa que passasse e que conhecia a tradição.
Lembro-me muito bem deste hábito, porque a minha mãe era muito devota deste santo, que  amanhã, dia 13,  se venera, e adepta desta tradição, quando se via aflita lá prometia um pãozinho e normalmente tudo acabava em bem, era tão devota  que até comprou esta imagem para ter em cima da cómoda e podem crer que, naquela altura, uma compra destas não era lá muito fácil, teve de se privar de algumas coisas para poder fazer tal aquisição.
Em Angra do Heroísmo, há a ermida de Santo António, no sopé do monte Brasil, onde se reza missa no seu dia e se distribuem pequenas brindeiras em sua honra .







domingo, 6 de junho de 2021

Império de Bicas de Cabo Verde

Vá fogo para o ar, que para o ano tudo será melhor, 
assim o Senhor Espírito Santo o Permita!

Este ano foi um ano atípico, palavra moderna que se utiliza para fazer referência ao que é  diferente e, como tal, não houve festas, contudo, a comissão de festas do Império de Bicas de Cabo Verde, na freguesia de São Pedro de Angra, entendeu manifestar a sua devoção ao Divino de uma forma simples e modesta, o altar foi decorada com flores singelas pela senhora dona Amélia Borges, amiga do procurador Luís Silva a quem a comissão  muito agradece e, ao longo da semana rezou-se o terço, cumprindo-se as regras de segurança, praticamente  a comissão e alguns familiares.
No último dia, após o terço, agradeceu-se de modo especial o facto de serem bafejados com saúde que permitiu estarem presentes ao longo da semana e a felicidade que sentida por viverem numa localidade, que embora muito pequena, permite que todos vivam e convivam em paz e harmonia. As preces de todos  dirigem-se ao Divino Espírito Santo para que permita que no próximo ano se voltem a encontrar, livres desta pandemia, para louvá-lo manifestando esta arreigada fé transmitida pelos antepassados.
Não tendo havido coroação, o Império abriu ontem e hoje, para os irmãos pagarem as suas irmandades e pelas 21horas e 30 minutos tiraram-se os pelouros para que o Espírito Santo corra as casas dos irmãos ao longo do ano.
E vá  fogo para o ar, que para o ano tudo será melhor, assim o Senhor Espírito Santo o permita!


 





domingo, 23 de maio de 2021

 

Em dia de Bodo:



O vestido  tristonho
Este foi o título do texto escrito há um ano atrás este ano acrescento um subtítulo:
- O vestido continua tristonho!

Em tempos idos, quando eu era jovem, as pessoas preparavam-se para  este dia em termos de indumentárias, os homens usavam o seu fato escuro e punham gravata e as mulheres faziam novas toaletes, conforme ditava a moda da altura e lá iam em alas acompanhando o imperador para a igreja cujo altar-mor ficava parecendo um coro celestial com as crianças da "briança"  todas de branco. Assistia-se à missa  que culminava com  a coroação acompanhada  do  Veni Criator Spiritus,  por entre uma nuvem de incenso queimado no  turibulo,  que balouçava na mão do sacristão. 
Era então a altura de se formarem novas alas e de se dirigirem para o império e despensa para aguardar a distribuição do bodo: pão, em grandes cestos de vimes e vinho para quem lá estivesse quer residentes quer forasteiros
O meu conterrâneo e amigo José Eduardo Espínola diz que, segundo reza a história, "em dia de bodo os bêbados não se imbobedam"
Nas varandas, as raparigas exibiam as suas roupas novas e namoriscavam os rapazes que, do terreiro, lhes atiravam confeitos para  chamar  a atenção e eu, pobre de mim, fazia parte deste grupo, contudo um pouco triste porque, tínhamos estado a ultimar as roupas das clientes até à última hora e,  usava roupa desatualizada e sem graça, não houvera tempo de reformar o meu guarda-roupa!
Passaram-se muitos anos, na minha última viagem a Lisboa vi um vestido que entendi  ser indicado para a minha idade, para o meu corpo e para a minha carteira e comprei-o pensando com os meus botões:
- Vai servir para usar no dia do Bodo e em algumas festas de Verão!
Passaram-se  os meses, veio esta pandemia e tudo mudou: 
- Quando eu era jovem e  havia bodos e festas na ilha Terceira eu não tinha roupa nova para usar e agora que tenho roupa nova para usar não há bodos nem festas - o que é um mal menor perante tanta tristeza que vai por esse mundo fora!
Então, na falta de oportunidade de usar o dito e pensando que vai ficar desatualizado, aqui vai ele, dou-lhe esta oportunidade de aparecer, pela segunda vez, tristonho, tristonho, como a sua dona, por não ter ocasião de arejar, de dar à perna, de se divertir... 
A vida tem destas coisas!









 Em dia de bodo - Na ilha Terceira, Açores

Como as pessoas não podem ir ao bodo, devido à situação que bem conhecemos, o bodo vai até às pessoas, deste modo, numa louvável iniciativa da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, hoje, à semelhança do ano anterior, o bodo vai até às pessoas e assim haverá um cheirinho desta tradição de partilha em todas as casas da ilha. Claro que as Bicas de Cabo Verde, um pequeno lugar da freguesia de São Pedro de Angra do Heroísmo , não foram exceção, assim, lá vão os mordomos da festa, que este ano não se realiza, fazer a distribuição de pão e vinho, depois de benzido pelo pároco da freguesia, cónego Jacinto Bento, pelas casa do lugar, colaborando com a autarquia.

Que o Senhor espírito Santo seja louvado, que estenda as suas bênçãos sobre todos e que permita que para o próximo ano as coisas sejam diferentes. 











sábado, 22 de maio de 2021

 

O meu açafate restaurado:

Pão do bodo…

No dia que antecedia os Domingos do Espírito Santo e  da Trindade a minha mãe levantava-se bem cedo, para fazer a amassadura e cozer o pão para o bodo. 
Quando os encarregados de distribuir o pão no bodo, os chamados mordomos, tinham passado a pedir, os meus pais haviam-se comprometido a colaborar com um determinado número de pães, havia quem desse dinheiro, mas os meus pais gostavam de continuar as tradições...
Depois do forno bem quente lá ia o pão muito bem tendido, com as suas cabeças airosas, para o forno, e a minha mãe deitava nas brasas uma mão de sal e dizia:
- Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus te acrescente! 
E lá ia o pão crescendo, enquanto a minha mãe vigiava não fosse ficar muito escuro, pois era coisa de responsabilidade!
Enquanto isso preparava-se o açafate, um lindo cesto redondo de vimes finos sem tampa e sem asa, que trouxe da minha casa das Lajes muito maltratado, com xilófagos, a tal palavra científica para o popular caruncho, que  foi restaurado pelo nosso amigo Carlos Duarte Martins, com um produto apropriado, e  outras técnicas que desconheço.
 Era então altura de se abrir a arca e de se retirar uma linda toalha branca, com uma artística barra de renda, do enxoval da minha mãe e lá se punham os pães na vertical, muito encostadinhos uns aos outros, com a cabecinha de fora e a minha mãe, num gesto de requinte, ia à roseira do quintal e apanhava as melhores rosas, que ela chamava rosas do bodo, por florirem naquela altura, para decorar todo aquele mimo, toda aquela doação, todo aquele gesto de cidadania, palavra que eles desconheciam embora soubessem e levassem bem a sério o facto de que deviam contribuir para que a tradição não se perdesse e para que todas as pessoas que passassem no bodo  da  à altura freguesia hoje vila das Lajes. tivessem o seu pão.
E lá ia o meu pai, com o açafate às costa, para a despensa, entregar o pão que, em conjunto com o das outras famílias e com o que o mordomo tinha cozido, seria distribuído, no bodo a todas as pessoas que por lá passassem.
O que os meus pais não imaginavam é que passados tantos anos o seu gesto o seu açafate iriam ser  lembrados com tanto apreço e saudade.