quinta-feira, 5 de agosto de 2021

As sombras da vida:

Ponto-de-sombra,

Ao usar este bonito e requintado pano, bordado por mãos diligentes,  habilidosas e ancestrais, lembrei-me de uma bela e ensolarada  tarde de Primavera em que eu acompanhando um grupo de crianças no recreio, reparei num aluno que, afastado dos colegas, fazia movimentos anormais, chegando ao extremo de se deitar na relva de pernas e braços  abertos. Intrigada, perguntei-lhe o que se passava, por que procedia de tal forma, ao que me disse que estava a descobrir se a sua sombra andava sempre a persegui-lo e se cabia na mesma...  Já não me lembro o que lhe respondi, o que é certo é que isso me me marcou de tal modo que, passados tantos anos, ainda me lembro desse dia e desse acontecimento!

Sendo a sombra "Um espaço privado de luz ou tornado menos claro pela interposição de um corpo entre ele e o objecto luminoso", a sombra está sempre lá, embora saibamos que há objectos opacos, translúcidos e transparentes o que dá origem a  vários tipos de sombras, como acontece com o ponto, chamado de sombra, do  bordado que te mostro, feito numa cambraia fina, pelo avesso, podemos ver o bonito efeito, da sua sombra, pelo direito, vai daí que, estando em idade e tempo de reflexões, concluo que as sombras são como as nossas acções, as nossas atitudes, boas ou más, estarão sempre junto de nós, farão sempre parte da nossa vida e até mesmo para além dela! 

Pobre de mim, cujas sombras são por vezes, pouco claras, tristes e muitas vezes deploráveis! Estarei a tempo de retificar atitudes? diz o povo que nunca é tarde para quem quer... Veremos.









 

terça-feira, 20 de julho de 2021

 Duas mães e duas filhas vão à missa com três mantilhas ...


Lembrei-me desta velha adivinha quando, esta manhã, porque o tempo estava chuvoso, decidi abrir uma arca onde guardo roupas antigas, colchas mantas do tear e outras coisas e encontrei, muito bem resguardadas, por causa da traça, estas peças antigas que , para muitas pessoas que, porventura me venham a ler, não dirão nada mas que para mim têm muito significado .

Um xaile com a sua barra lustrosa, um cachené de lã, e uma longa  mantilha de algodão arrendada, tudo preto, tudo negro com devia ser a roupa das viúvas em tempos recuados. Xaile de pontas sobre a cabeça e o cachené, palavra que vem do francês cache-nez  que traduzido significaria, quanto a mim,  esconde nariz  e depois, mais leve, a mantilha que seria usada, também pelas viúvas, toda a vida a quem não era permitido saírem à rua de cabeça descoberta!

Em jeito de brincadeira, pus a mantilha,  só por uns momentos, ia desmaiando, com o calor e o ar abafado e a pensar o que sofreram as nossas antepassadas, sempre caladas e resignadas para não serem faladas... Outros tempos, outras gentes!

E agora, a resposta à adivinha?









domingo, 27 de junho de 2021

Nunca fiando...

 Quando os avós do meu marido vieram da América, bem no início do séc. passado, fixaram residência na freguesia do Raminho, na costa noroeste da ilha Terceira, limitada a leste pela freguesia dos Altares e a oeste pela freguesia da Serreta, numa casa erguida num local alto, calmo e soalheiro onde se vislumbra o Oceano Atlântico com as ilhas Graciosa e S. Jorge no horizonte. Constatando que a localidade precisava de um local que prestasse serviços na área do comércio, abriram uma mercearia ou como então se dizia, uma venda. O tempo foi passando, o avô faleceu e a avó aguentando estoicamente até que, dando a mão à palmatória, teve que abandonar tudo e deslocar-se para junto da filha.

Uma História muito vulgar e comum a muitas famílias e anciãos que, involuntariamente,  se despedem das suas casa e haveres à procura de ajuda e apoio dos mais novos, quem sabe a história não está prestes a repetir-se para muitos de nós!?

Lá ficou a casa vazia, sem alma, a degradar-se até que, estando  em vias de recuperação lá fui com o meu marido e os técnicos competentes, vai daí que os meus olhos deram com um quadro muito maltratado, de fiados e haveres, peça tradicional do início do séc. passado em tudo o que era comércio, que era como que um amuleto para os comerciantes quando instados a fiarem respondiam:

- Aqui não se fia, olha para a parede e vê em que estado fica quem fia!...

Ao olhar aquela estampa lembrei-me dos meus tempos de meninice, do rol que havia nas mercearias, pois os merceeiros fiavam  só às pessoas da sua confiança, que pagavam no fim do mês ou da semana, e das compras que ia fazer a mando da minha mãe, que não tinham nada a ver com as compras que se fazem atualmente. 

Meio Kg de açúcar, um quarto de kg de arroz, petróleo, um pouco de temperos, nem farinha, nem ovos, nem grão, nem manteiga, nem vinagre, nem banha nem frango nem carne, nem leite, nem hortaliças, nem legumes, tudo isso era de casa , tudo isso era fruto do trabalho resiliente, persistente e de muito amor com que os meus pais se dedicavam à vida...

Ai, mas que alegria quando eu tinha 10 centavos e ia à venda do Sr. Guilherme ou do Sr. José Linhares comprar alfarrobas que eram embrulhadas em papel pardo que o merceeiro fechava com um jeito dos dedos que me fascinava! No regresso, os calcanhares batiam-me no rabo de tanto correr para chegar a casa e a minha mãe permitir que eu comesse algumas e guardasse as restantes para outro dia...

Estou a ver, as mãos calejadas, de trabalho, da minha mãe, a alisar docemente, o pedaço de papel pardo que guardava cuidadosamente, na gaveta do louceiro para ser usado novamente... Estou em crer que foi por causa desse pedaço de papel que me ficou este jeito de poupar, guardar, reciclar e de olhar as coisas que, para muitas pessoas são imprestáveis, com uma vontade de lhes proporcionar uma segunda oportunidade, de lhes dar crédito!









quinta-feira, 24 de junho de 2021

 


Saudades,

Ai que saudades eu tenho

De uma gargalhada sentida,

De um bater palmas divertida,

De uma vida colorida,

De sentir a multidão unida...

Ai que saudades eu tenho

Dos bons tempos que já se foram,

Das festas que não vieram,

Dos desfiles com muita gente,

De ver tudo alegre e contente...

Ai, eu tenho esperança e certeza

Que atrás de tempo, tempo virá,

Assim o espero ardentemente,

Em que o meu gargalhar soará

E o meu bater palmas  será estridente...

Ai, eu tenho esperança e certeza

Que aproveitarei cada minuto,

Sempre alegre, sempre a sorrir,

Porque o futuro é imprevisto,

Não sabemos o que está para vir...

Ai, eu tenho esperança,

e quero ter a certeza...

Que quando esse tempo  vier,

Meus olhos estarão abertos,

Para esta alegria viver,

Nas Sanjoaninas,  que voltarão!

CLARA FARIA DA ROSA,

24/JUNHO/2021







sábado, 12 de junho de 2021

 

Santo António o auxiliar nas causas e coisas perdidas


Quando eu era criança, havia o hábito de se solicitar a ajuda de Sto. António
no caso de se ter perdido alguma coisa, ou quando se estava com qualquer problema de difícil solução, na ocasião, prometia-se uma esmola em louvor do santo que se colocava em cima do muro, junto à nossa casa, caso a graça fosse concedida, o objeto perdido aparecesse e, o problema se resolvesse.
Normalmente era um pão que era levado por qualquer pessoa que passasse e que conhecia a tradição.
Lembro-me muito bem deste hábito, porque a minha mãe era muito devota deste santo, que  amanhã, dia 13,  se venera, e adepta desta tradição, quando se via aflita lá prometia um pãozinho e normalmente tudo acabava em bem, era tão devota  que até comprou esta imagem para ter em cima da cómoda e podem crer que, naquela altura, uma compra destas não era lá muito fácil, teve de se privar de algumas coisas para poder fazer tal aquisição.
Em Angra do Heroísmo, há a ermida de Santo António, no sopé do monte Brasil, onde se reza missa no seu dia e se distribuem pequenas brindeiras em sua honra .







domingo, 6 de junho de 2021

Império de Bicas de Cabo Verde

Vá fogo para o ar, que para o ano tudo será melhor, 
assim o Senhor Espírito Santo o Permita!

Este ano foi um ano atípico, palavra moderna que se utiliza para fazer referência ao que é  diferente e, como tal, não houve festas, contudo, a comissão de festas do Império de Bicas de Cabo Verde, na freguesia de São Pedro de Angra, entendeu manifestar a sua devoção ao Divino de uma forma simples e modesta, o altar foi decorada com flores singelas pela senhora dona Amélia Borges, amiga do procurador Luís Silva a quem a comissão  muito agradece e, ao longo da semana rezou-se o terço, cumprindo-se as regras de segurança, praticamente  a comissão e alguns familiares.
No último dia, após o terço, agradeceu-se de modo especial o facto de serem bafejados com saúde que permitiu estarem presentes ao longo da semana e a felicidade que sentida por viverem numa localidade, que embora muito pequena, permite que todos vivam e convivam em paz e harmonia. As preces de todos  dirigem-se ao Divino Espírito Santo para que permita que no próximo ano se voltem a encontrar, livres desta pandemia, para louvá-lo manifestando esta arreigada fé transmitida pelos antepassados.
Não tendo havido coroação, o Império abriu ontem e hoje, para os irmãos pagarem as suas irmandades e pelas 21horas e 30 minutos tiraram-se os pelouros para que o Espírito Santo corra as casas dos irmãos ao longo do ano.
E vá  fogo para o ar, que para o ano tudo será melhor, assim o Senhor Espírito Santo o permita!


 





domingo, 23 de maio de 2021

 

Em dia de Bodo:



O vestido  tristonho
Este foi o título do texto escrito há um ano atrás este ano acrescento um subtítulo:
- O vestido continua tristonho!

Em tempos idos, quando eu era jovem, as pessoas preparavam-se para  este dia em termos de indumentárias, os homens usavam o seu fato escuro e punham gravata e as mulheres faziam novas toaletes, conforme ditava a moda da altura e lá iam em alas acompanhando o imperador para a igreja cujo altar-mor ficava parecendo um coro celestial com as crianças da "briança"  todas de branco. Assistia-se à missa  que culminava com  a coroação acompanhada  do  Veni Criator Spiritus,  por entre uma nuvem de incenso queimado no  turibulo,  que balouçava na mão do sacristão. 
Era então a altura de se formarem novas alas e de se dirigirem para o império e despensa para aguardar a distribuição do bodo: pão, em grandes cestos de vimes e vinho para quem lá estivesse quer residentes quer forasteiros
O meu conterrâneo e amigo José Eduardo Espínola diz que, segundo reza a história, "em dia de bodo os bêbados não se imbobedam"
Nas varandas, as raparigas exibiam as suas roupas novas e namoriscavam os rapazes que, do terreiro, lhes atiravam confeitos para  chamar  a atenção e eu, pobre de mim, fazia parte deste grupo, contudo um pouco triste porque, tínhamos estado a ultimar as roupas das clientes até à última hora e,  usava roupa desatualizada e sem graça, não houvera tempo de reformar o meu guarda-roupa!
Passaram-se muitos anos, na minha última viagem a Lisboa vi um vestido que entendi  ser indicado para a minha idade, para o meu corpo e para a minha carteira e comprei-o pensando com os meus botões:
- Vai servir para usar no dia do Bodo e em algumas festas de Verão!
Passaram-se  os meses, veio esta pandemia e tudo mudou: 
- Quando eu era jovem e  havia bodos e festas na ilha Terceira eu não tinha roupa nova para usar e agora que tenho roupa nova para usar não há bodos nem festas - o que é um mal menor perante tanta tristeza que vai por esse mundo fora!
Então, na falta de oportunidade de usar o dito e pensando que vai ficar desatualizado, aqui vai ele, dou-lhe esta oportunidade de aparecer, pela segunda vez, tristonho, tristonho, como a sua dona, por não ter ocasião de arejar, de dar à perna, de se divertir... 
A vida tem destas coisas!









 Em dia de bodo - Na ilha Terceira, Açores

Como as pessoas não podem ir ao bodo, devido à situação que bem conhecemos, o bodo vai até às pessoas, deste modo, numa louvável iniciativa da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, hoje, à semelhança do ano anterior, o bodo vai até às pessoas e assim haverá um cheirinho desta tradição de partilha em todas as casas da ilha. Claro que as Bicas de Cabo Verde, um pequeno lugar da freguesia de São Pedro de Angra do Heroísmo , não foram exceção, assim, lá vão os mordomos da festa, que este ano não se realiza, fazer a distribuição de pão e vinho, depois de benzido pelo pároco da freguesia, cónego Jacinto Bento, pelas casa do lugar, colaborando com a autarquia.

Que o Senhor espírito Santo seja louvado, que estenda as suas bênçãos sobre todos e que permita que para o próximo ano as coisas sejam diferentes. 











sábado, 22 de maio de 2021

 

O meu açafate restaurado:

Pão do bodo…

No dia que antecedia os Domingos do Espírito Santo e  da Trindade a minha mãe levantava-se bem cedo, para fazer a amassadura e cozer o pão para o bodo. 
Quando os encarregados de distribuir o pão no bodo, os chamados mordomos, tinham passado a pedir, os meus pais haviam-se comprometido a colaborar com um determinado número de pães, havia quem desse dinheiro, mas os meus pais gostavam de continuar as tradições...
Depois do forno bem quente lá ia o pão muito bem tendido, com as suas cabeças airosas, para o forno, e a minha mãe deitava nas brasas uma mão de sal e dizia:
- Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus te acrescente! 
E lá ia o pão crescendo, enquanto a minha mãe vigiava não fosse ficar muito escuro, pois era coisa de responsabilidade!
Enquanto isso preparava-se o açafate, um lindo cesto redondo de vimes finos sem tampa e sem asa, que trouxe da minha casa das Lajes muito maltratado, com xilófagos, a tal palavra científica para o popular caruncho, que  foi restaurado pelo nosso amigo Carlos Duarte Martins, com um produto apropriado, e  outras técnicas que desconheço.
 Era então altura de se abrir a arca e de se retirar uma linda toalha branca, com uma artística barra de renda, do enxoval da minha mãe e lá se punham os pães na vertical, muito encostadinhos uns aos outros, com a cabecinha de fora e a minha mãe, num gesto de requinte, ia à roseira do quintal e apanhava as melhores rosas, que ela chamava rosas do bodo, por florirem naquela altura, para decorar todo aquele mimo, toda aquela doação, todo aquele gesto de cidadania, palavra que eles desconheciam embora soubessem e levassem bem a sério o facto de que deviam contribuir para que a tradição não se perdesse e para que todas as pessoas que passassem no bodo  da  à altura freguesia hoje vila das Lajes. tivessem o seu pão.
E lá ia o meu pai, com o açafate às costa, para a despensa, entregar o pão que, em conjunto com o das outras famílias e com o que o mordomo tinha cozido, seria distribuído, no bodo a todas as pessoas que por lá passassem.
O que os meus pais não imaginavam é que passados tantos anos o seu gesto o seu açafate iriam ser  lembrados com tanto apreço e saudade. 




domingo, 2 de maio de 2021


Saudosa mãe, como eu por ti suspiro!

Um amigo, colega e eis aluno ofereceu-me, por  ser dia da mãe, um saco de suspiros, coloridos, doces, macios, suaves no comer, perfumados, a rirem-se para mim… 
- Tudo aquilo que uma mãe deve ser! - diz ele.
Fiquei tão surpreendida, pelo inesperado  e pela delicadeza do gesto que, logo ali, sem pensar em cuidados, nem em vírus o abracei, um abraço saudoso do passado e do incerto futuro…
Tive saudades do tempo em que ele era criança e eu, ainda jovem, o encaminhava, à minha maneira, tive saudades de todos o antigos alunos, de todas as mães que me procuravam para saber dos seus filhos, muitas delas já partiram e, muitas saudades da minha querida mãe por quem suspiro com muita carinho. 
Tu mãe exististe, e todas as mães existem porque Deus sabe o que faz e sabe incutir no coração das mães a bondade, a calma, o cuidado, a abnegação, a doçura, qualidades que as mães semeiam à  sua volta, esquecendo-se muitas vezes, de si, do seu bem-estar, da sua saúde
A todas as mães, votos de um feliz dia!