sexta-feira, 5 de outubro de 2018




E o amor aconteceu...
Eu vi nas festas das Lajes
O amor acontecer,
Eu vi nas festas das Lajes
O que é o amor bem viver...
Nestas festas da Terceira
Linda ilha dos Açores,
Vi uma idosa à maneira,
Devido ao Sol e aos calores,
O seu amor resguardar
Sentado numa cadeira...
Um amor bem guardado 
E sempre muito bem cuidado
Com carinho, com respeito
Em anos e anos a eito....
E logo ali concluí:
Que o amor não são flores
Nem jóias,carros ou casas
Nem despiques, nem rancores 
Nem lindas e caras oferendas...
O amor é bem cuidar, 
O amor é muito querer,
O amor é atento estar,
E o outro proteger!
Clara Faria da Rosa,

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O vestidinho reversível:

E a avó muito vaidosa da sua netinha, e com razão, porque era linda, muito calma, sociável e fresca como um  pequeno botão de rosa, falava dela e do vestidinho azul e branco, reversível, aquisição recente... 
Reversível, disse eu com os meus botões, adjectivo interessante, que tem muitas aplicações como definir o que pode  ser realizado em sentido inverso, que pode ser colocado no primeiro estado, que pode ser revertido, alterado ou mudado, que se pode pôr do avesso...
Vai daí, pensei logo na minha mãe que era mestra em reverter as minhas roupas, em desmanchar e fazer de novo, em alterar dando a sensação de que eu tinha roupa nova e então,  para me contentar dizia:
- Este tecido era muito bom, tinha duas vistas! O que queria dizer que era reversível, podia fazer-se obra nova usando o avesso...
Pobre, saudosa e querida mãe que tanto trabalhaste, poupaste, criaste e reverteste para que nada me faltasse  e eu estivesse sempre limpa e decente! 
Pena que o tempo não seja reversível.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Ser idoso:

Celebra-se hoje o dia internacional do idoso.
Mas afinal, quando é que se considera um ser humano um idoso?
Acho que, quando chega aquela etapa da vida em que a pessoa se sente trôpega, vacilante, se segura aos móveis, em parentes e amigos e lhe oferecem como presente de aniversário uma bengala, entrou naquela idade geriátrica em que nos hospitais se aconselha a ter paciência, a adaptar-se, a aceitar, a conformar porque afinal ter muitos anos é bom, é sinal que se sobreviveu...
É verdade que existem pessoas entre os setenta e os cem anos que conseguem viver eficientemente e sozinhas e funcionam sem esforço mas isso são raras excepções.
Fala-se em sabedoria adquirida, em serenidade, diz-se que ter sobrevivido é uma bênção mas o que os anos acarretam geralmente não é aquela tranquila doçura enquanto se percorre o caminho do crepúsculo, que muitos livros, que falam do assunto, anunciam .
As deficiências, as dores, a dependência dos outros, a diminuição da mobilidade, da visão , da audição são condições e características desta etapa da vida que preocupam os que dela se aproximam .
Creio que apesar disto, há sempre um raio de luz interior que faz a pessoa sentir-se jovem, aquele jovem que nunca cresce !
A esse raio chamaria saudade, realização pessoal, doação, experiência vivida enfim...VIDA.

Chá-de-Panela

Sabes o que é um chá-de-panela? Não? Eu também não sabia, até  ser convidada a participar neste evento, e fiquei sabendo que é uma reunião para a qual a noiva convida as suas amigas que oferecem utensílios para a cozinha e ou para a casa futura. Parece que este hábito começou na Holanda onde, segundo uma lenda muito antiga, um jovem e pobre moleiro se apaixonou por uma donzela rica, não tendo posses para apetrechar o novo lar, convocou as amigas da noiva e tudo se resolveu, há ainda quem relacione este hábito ao facto de em tempos bastante recuados uma jovem sem dote, só muito dificilmente arranjava noivo, assim, as amigas reuniam-se, e a jovem conseguia o dinheiro e os objectos  que a transformavam em noiva apta a ser escolhida por um pretendente, e a ter o lar sonhado.
Isto é história, como foi , para mim, uma história de fadas, uma história de encantar, o ter participado no chá de panela da Mariana e do André Ribeiro, dois jovens que pretendem consolidar o seu amor pelo casamento, em breve, os quais aproveitaram para juntar amigos e familiares numa espécie de prévia apresentação.
Foi, um mimo, uma doçura,um requinte que me fez sonhar e pensar como teria sido bom se eu tivesse nascido mais tarde, é que no meu tempo as coisas eram bem diferentes...
Parabéns Mariana e André e obrigada pela oportunidade que me proporcionaram de viver um acontecimento tão especial. Que sejam felizes! 









































domingo, 30 de setembro de 2018

Reavivando amizades...


Com a proximidade das festas  da vila das Lajes, que encerram o ciclo festivo da nossa ilha, fico sempre muito nostálgica porque me lembro da azáfama que se vivia na nossa casa nos dias que  as precediam. Era a pintura da casa para ficar tudo fresco, como dizia a minha mãe, limpezas gerais, a compra de um bezerro do qual o meu pai era quinhoeiro, para se fazerem as alcatras com abundância , o ir com o meu pai apanhar  folhas de coquilho ou conteiras para serem tendidos os pães de massa sovada que enchiam o forno e a cozinha de um odor inesquecível e eram os amigos e parentes que vinham de outros lugares para nos visitarem...
Ponho-me a pensar na multidão de pessoas com quem partilhei vivências e  experiências de infância semelhantes, com quem fui à catequese e à escola e lembrei-me de um feliz encontro, numa pastelaria da nossa cidade, no princípio deste mês agora a findar. 
Para mim, um encontro, é uma maneira de recuperar amizades, amor, valores, recordações, raízes e até mesmo, e porque não? Cheiros e sabores! E foi o que se passou:
- Num gesto de boas-vindas e de saudade por duas amigas lajenses a Marcionilde e a mana Aldegisse, juntá-mo-nos à volta de sabores e odores tradicionais e desfilámos um rosário de recordações sem fim... tudo veio à superfície, tudo foi lembrado: pessoas, hábitos e costumes, festas, acontecimentos, até nos lembrámos da primeira dança de Carnaval, feita nas Lajes, com  mulheres, em que uma das participantes foi a Aldegisse, ainda me lembro das roupas e dos adereços que usavam ao pescoço, uma fita de veludo preta com um belo medalhão que, aos meus olhos de criança, parecia uma jóia preciosa!
E  o encontro acabou com mimos vindos da Califórnia, com uma amizade reforçada e com vontade de novo encontro.
Não podemos voltar atrás nem fazer com que as coisas voltem a ser o que eram, mas podemos reavivar amizades e recordações em vez de as metermos no armário do esquecimento o que, quanto a mim, é muito, muito salutar e gratificante!
















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domingo, 2 de setembro de 2018

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Vão-se lá entender os adultos! 

Estes são os meu avós paternos Maria Borges de Meneses 1895-1969 e António Machado de Almeida 1880-1949 que viveram e criaram os seus filhos  em Santa luzia da Praia da Vitória, ilha Terceira. Por hoje ser dia de festa nesta localidade, deu-me para pensar neles, sobretudo na minha avó pois do meu avô  não tenho memórias, por ter falecido, tinha eu um ano.
Ia sempre passar as festas para casa da minha avó, o que para mim era uma alegria, pois era também uma oportunidade de conviver com os meus primos.
Guardo na minha memória muitas histórias desses tempos e hoje lembrei-me especialmente que no dia da procissão, depois do jantar, a minha avó vestia a sua casaca de brocado preto e a sua saia castanha, ajeitava o seu pelo com ganchos de osso e alisava bem o cabelo que prendia com bonitas travessas, punha a sua sombrinha no braço, pegava no missal e no seu terço e lá me levava a reboque para a missa - de - festa e sermão.
Era um martírio para mim, porque a avó era do tempo em que não havia carros e, por isso, tinha tendência para andar no meio da estrada e eu tinha que estar continuamente a puxá-la para a berma da estrada pois os carros dos americanos da base da Lajes, ali ao pé, quase no quintal, ferviam!
Na igreja era só gente de idade e adultos, as roupas cheiravam a naftalina e eu , aos pés da minha avó, sentada no pequeno banquinho de ajoelhar, olhava para o púlpito, para os torneados de madeira com uns anjinhos todos pretos, até as asas, e para o pregador, atónita, sem perceber nada, mas parecendo-me, a certa altura, perceber que ele ameaçava os presentes! Mas porquê se eu até fazia tudo o que me mandavam e rezava à noite as minhas orações?

- Avó, ele está zangado comigo?
-Cala-te rapariga, isto não são assuntos para ti!!!
Vão-se lá entender os adultos...

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Eu bem que desconfiava!

 Eu bem que desconfiava, quando colocava esta manta ou colcha, na minha varanda para a engalanar por ocasião da festa da localidade que ela, embora na minha posse há muito, não tinha nada a ver com o artesanato local...
 Fui adiando esta dúvida até que agora, depois de uma  conversa com uma amiga muito entendida nestas matérias, e de a seu conselho fazer uma pesquisa no Google, concluí que esta linda peça, é uma colcha de feltro, artesanato de Nisa, que é uma vila alentejana situada no distrito de Portalegre em Portugal Continental.
 São os únicos trabalhos de Nisa onde se utiliza a máquina de costura para, após um minucioso trabalho de recorte de folhas, cachos de uvas e outros temas relativos à flora local, em feltro, serem aplicados sobre a peça chave. 
Segundo me apercebi, esta arte tradicional e popular aplica-se em toalhas de camilhas, mantas ou cobertores, barras de saias. panos para mesas, almofadões e outros.
Eu bem que desconfiava, que tinha na minha arca, uma peça muito original e de valor cultural! 

sábado, 25 de agosto de 2018

Com vinagre não se apanham moscas!




 Sempre que, nas andanças pela minha casa, os meus olhos dão com  esta lindíssima peça que, à primeira vista parece um licoreira, penso no ditado antigo:
- Com vinagre não se apanham moscas, porque afinal este utensílio em forma de garrafa de vidro transparente, muito fino, bojudo, com ressalto no fim do gargalo alongado e que apresenta uma reentrância, no fundo, para o interior, aberta na parte central, possuindo três pequenos pés em vidro e uma rolha também de vidro, muito elegante, é um mosqueiro dos princípios do séc. XX no qual se introduzia uma substância  doce que atraía as moscas que lá ficavam presas. Penso que a rosca no gargalo servia para se pendurar com um barbante no tecto e lá ficava, o dito cujo, à espera das moscas... 
Pois é, ao olhá-lo, dou comigo a dizer para mim própria:
Clara, deixa-te de azedumes, pois a vida é como um mosqueiro, não se compadece com azedumes que só atraem dissabores, inimizades e mal-estar afinal até as moscas são atraídas pela doçura, embora isso seja nefasto para elas!