domingo, 6 de abril de 2014

Se a tristeza fosse...

Se a tristeza fosse uma flor... 
Teria  as pétalas caídas,
A olhar a terra escura,
Esquecendo a frescura,
Que nos trazem nossos dias.
Se a tristeza fosse o mar...
Seria negra, revolta, escura,
Beijaria com força as rochas, 
Esmagando altas ondas,
Uivando com amargura.
Se a tristeza fosse lágrima...
seria viscosa, grossa, pesada,
Correria lenta e sem vontade,
Denunciando toda a maldade,
Que a faz correr agoniada.
Se a tristeza fosse a noite...
Duraria eternamente,
Sem deixar o sol sorrir,
Nem a maldade partir,
Num escuro permanente.
Mas...
A tristeza não é noite, nem flor,
Não é lágrima, nem é mar,
É muitas vezes grande dor...
Que nos vem de muito amar!

Clara Faria da  Rosa

sábado, 5 de abril de 2014

Tentações...


A tarde estava boa se  comparada com a manhã, saio à rua e olho para as nespereiras e para os respectivos frutos mas de uma forma indolente e desprendida, aconteceu então que um anjo bom me tocou no ombro e disse:
- Então Clara, e se aproveitasses os frutos para fazer uma compota?
Logo um anjo mau me cutucou o outro ombro dizendo:
- Deixa-te disso, este ano os frutos são muito miúdos , talvez por não ter chovido na época própria e têm má apresentação devido aos ventos fortes.
o anjo bom insistia:
- Não sejas preguiçosa, podes muito bem aproveitar alguns e tirar as partes más.
O anjo mau não desistia:
- Vai mas é descansar ou passear e deixa os frutos para os pássaros, para que vais fazer compota que só faz mal?
Então o anjo bom insistia novamente:
- Podes aproveitar alguns frutos que ainda ficam muitos para os pássaros  e  ficas com abundância  para rechear alguma torta ou bolo, acompanhar umas torradinhas ou então oferecer a alguém... 
Foi uma luta terrível, mas  o anjo bom venceu e lá fui munida de um cesto apanhar nêsperas e depois arranjá-las, levei um bom bocado e fiquei com as mãos e unhas com muito má apresentação.


  Lá foram as desgraçadas para a panela levando bastante tempo a fazer o ponto porque nestas coisas de doces sou um pouco aldrabona e nunca junto o açúcar recomendado por lei.
No fim, pressenti que o anjo bom se regozijava com a minha atitude e com o facto de eu, que sou um pouco preguiçosa, ter conseguido levar avante o meu projecto. 




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Já lá vão cinco anos!

Já se passaram faz hoje cinco anos que partiu a minha amiga Bélia Barcelos Cota  e não a esqueci.
Lembro-me de lhe dizer muitas vezes que gostava de saber passar o tempo como ela, com a mesma força, a mesma inteligência, a mesma curiosidade e a mesma elegância. Sim, porque a Dona Bélia, como eu lhe chamava , apesar de sermos muito amigas,  era uma anciã,  ( palavra que por definição significa pessoa velha e veneranda), mas era mais nova do que muitos jovens, arranjava-se com elegância, recebia os amigos sempre com muita alegria, era uma pessoa que lia muito, por isso informada e actualizada, corajosa e que tinha sonhos e projectos... Que viveu como eu gostaria de viver mas que morreu de uma forma imerecida, cruel, que quero esquecer! Agora percebem porque sinto muito a falta desta amiga e não a esqueço .
Pois é, a amizade é isto mesmo, recordações, alegrias e tristezas, preocupações, ajuda e conforto ou desconforto mas  é um sentimento gratificante que nos enriquece, engrandece, purifica e nos une para além da vida,  pelo que nunca vou esquecer a minha querida amiga Bélia Barcelos Cota!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Peças vintage










Hoje, ao descascar e picar cebola para  preparar o almoço,  os  meus olhos lacrimejando  olhavam  para a casca amarelada e brilhante da cebola fazendo-me  lembrar de um vidro que adoro.
O vidro casca de cebola  que é muito procurado por coleccionadores e  apresenta-se em  lindíssimas peças vintage  como cachepots, garrafas,  jarras e conjuntos para água e vinho. No início do século passado, talvez na década dos anos vinte, o vidro branco transparente era tratado quimicamente de  modo a adquirir o tom da casca de cebola que depois podia ser gravado ou tratado com  jactos de areia que lhe conferiam artísticos desenhos.
Tenho uma pequena colecção de peças deste vidro que conservo religiosamente porque elas me lembram o passado  tranquilo,  tornando-o em simultâneo presente e  permanente.
 Elas dão-nos um toque de eternidade porque indiferentes ao passar dos anos, às modas, tempestades e convulsões do presente conservam a sua calma e dignidade e desafiam  os espíritos conturbados que não valorizam o requinte do pormenor.

Dedico este pequeno apontamento à Maria João que diz apreciar o que escrevo. Um grato beijinho.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Sonhar acordada





Sempre achei que sonhar acordada não faz mal a ninguém. Aliás, sou muito de sonhar acordada, o pior é quando acordo e dou por mim com a realidade nua e crua! A  maioria dos meus sonhos são de carácter remoto, difíceis de realizar:
Ora sonho fazer um cruzeiro à volta do mundo, vendo-me sentada no convés  do navio,tomando um delicioso refresco, protegida por um lindo e elegante chapéu de grandes abas, ora sonho publicar  um livro de memórias, caindo depois na realidade e concluindo que não tenho nada de relevante para contar e ninguém estaria interessada no que eu eventualmente contasse. No entanto, a força do hábito é um mal de difícil cura e hoje voltei a sonhar acordada, sentada à mesa, à hora do almoço.
Tendo homens de trabalho para almoçar, resolvi logo pela manhã, fazer uma suculenta  sopa e um arroz que acompanharia torresmos, comprados na  Salsicharia Pavão, que fica aqui perto.
O problema foram os torresmos todos XPTO, como diz o meu filho, muito bem acondicionados numa caixa de plástico rectangular.
Antigamente, sonho eu, no dia da matança do porco era uma alegria, e no outro dia uma abundância de torresmos em grandes pratos de barro que a minha mãe acondicionava nas gordureiras e cobria com banha fervente e borbulhante e como não havia frigoríficos nem arcas congeladoras a carne era acondicionada e salgada  em grandes salgadeiras  e assim tínhamos carne para todo o ano. A minha mãe separava as partes do porco conforme a finalidade que lhe ia dar, assim como os torresmos uns para o Carnaval outros para o Natal etc. etc. etc. E que bem que sabiam e que delicioso cheiro se desprendia  do negro panelão de ferro que derretia as carnes para os torresmos!
- Então não se come- diz o meu marido - e lá acordo eu do meu sonho e almoçamos porque homens que trabalham duro têm sempre fome!
A verdade é que o meu nostálgico sonho tem uma certa razão de ser é que vivemos num tempo de muitos saberes, muitas evoluções, muito racionalismo mas de sentir pouco. Na história  da matança do porco, de que te acabo de contar um pequeno pormenor, há paz , segurança e tranquilidade e até mesmo, quanto a mim,  uma certa dimensão espiritual. 


sábado, 29 de março de 2014

Quem porfia mata caça.

Era uma vez...

O título sugere que te vou contar uma história tradicional de príncipesprincesas e bruxas más, mas não, é a história  de uma atitude de persistência e de muito querer que te vou falar e de como  se acreditarmos que somos capazes conseguimos atingir a estrela luminosa que perseguimos.
Mas deixe-mo-nos de teorias e vamos lá à história:
Era uma vez uma tampa de louça abandonada!
 Singular, não é?
Pois é verdade, certo dia há uns  três anos atrás fui a uma feira de antiguidades e os meus olhos deram com uma linda tampa de louça, para ali abandonada em que ninguém reparava; Tive pena daquele abandono, e resolvi trazê-la para casa.
Tempos depois encontrei outra que pensei ser digna de fazer companhia à primeira e lá as juntei
 E depois uma e mais outra e lá as fui juntando lembrando-me sempre que cada uma delas tinha a sua história: - já fora presente de aniversário e ou, de casamento, ou prenda de namorado ou de amigo e que já tinha sido acarinhada, acariciada e apreciada por alguém;












 Tempos depois decidi que estava na altura de as reunir e de as expor para que os outros as pudessem  também apreciar e assim procedi, arranjei uma moldura que se adaptasse ao fim em vista , forrei o fundo de tecido verde e com uma cola própria para porcelanas, lá as dispus e fiquei contente com o resultado obtido.
Conto-te isto numa vertente pedagógica para que se conclua que nem só o que há nas lojas a vender é que é bom, também podemos criar muita coisa  com a vantagem de gozarmos de muita satisfação enquanto criamos e executamos a nossa "obra de arte"



  Mas esta não é uma história acabada, hoje mesmo acrescentei mais uns exemplares à minha colecção, por isso te estou a contar isto hoje, embora já me tenha referido,neste blogue, há tempos atrás a este assunto.
                                                                       E, posto isto, só me resta lembrar o que o meu pai dizia.
Quem quer bom ervilhal semeia-o antes do Natal, ou então quem porfia mata caça. Quer isto dizer que as coisas não se fazem num dia mas têm que se fazer com persistência, atempadamente e dar tempo até se atingirem os objectivos pretendidos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Dia nacional da juventude

Ser jovem:

Ser jovem 
É ter força, saúde, alegria, 
Esperança, beleza, companhia.
Ser jovem
É acreditar no futuro 
É esperar uma vida boa
É sentir tudo a seus  pés
É sonhar um lugar merecido 
Ser jovem 
É buscar um tesouro
É buscar o amor verdadeiro
É buscar prata e ouro
É buscar no mundo inteiro!

Discrição...

Sou uma pessoa discreta, pelo menos considero-me discreta, por isso, quando quero contar algo, não ando por aí a anunciar aos quatro ventos que é como quem diz a toda a agente, escolho a pessoa certa, de confiança que tem que ser também uma pessoa discreta, estás a ver?
Tendo necessidade de partilhar com alguém o que me aconteceu ontem e que me transportou à minha casa de infância, ao meu lar , àquele onde cresci e que os meus pés abandonaram mas onde ficou o meu coração e agora me apetece voltar, nada mais discreto do que o meu blogue ou o facebook...
     É por isso que estou a contar hoje um problema que me fez fazer "replay " da minha infância:
Ontem à tarde faltou, por pouco tempo, a energia eléctrica aqui na minha zona, parece que foi uma catástrofe, foi a máquina que estava a lavar roupa, o computador,o televisor, o triturador, tudo paradinho e mortinho da Silva e eu nem uma barata tonta sem resolver a vida! Foi então que me lembrei da minha infância e de como se vivia sem electricidade de como passávamos os serões à luz de petróleo e a minha mãe passava roupa com um ferro a carvão e não se queixava!
Lembro-me da inauguração, com pompa e circunstância,  da rede de electricidade na então freguesia das Lajes hoje vila, com merecimento, e de o meu pai contar que um senhor amigo, o senhor João do Martins de quem a minha amiga Marília Costa mostrou há dias um   lindo portão que dava acesso à respectiva moradia, quando recebia alguém lá em casa mostrava a instalação eléctrica com um candeeiro de petróleo, para o contador não andar - dizia ele!
Enfim coisas que fazem parte da história da minha família da minha freguesia da minha geração que me fascinam com a mesma sensação profunda com que me fascina qualquer história ocorrida por esse mundo fora ao longo dos tempos e espero que a ti também.
Mostro-te os meus candeeiros  que fui coleccionando ao longo dos tempos para minha memória e dos tempos futuros.
Como vês sou uma pessoa muito discreta!