quinta-feira, 17 de março de 2016

Miguel Torga e a minha ida à Feira da Ladra...

Num Sábado não muito distante, fui até ao Martim Moniz onde apanhei o eléctrico 28 para ir até à Feira da Ladra. Ao apear-me deparei-me com a fachada simples e simétrica mas sumptuosa, da igreja ou mosteiro de São Vicente de Fora, com as suas torres aos lados e sobre a entrada as estátuas de São Vicente ,Santo Agostinho e São Sebastião, fica à entrada para a Feira da Ladra na freguesia de São Vicente, concelho de Lisboa, no bairro de Alfama.
Em 1173  São Vicente foi proclamado padroeiro de Lisboa quando as suas relíquias foram transferidas do Algarve.
Este mosteiro começou a ser construído em 1582 no local onde D. Afonso Henriques havia mandado construir um primeiro templo em honra deste santo.





Embora o dia estivesse chuvoso e frio e com pouca afluência, lá fui deambulando por entre as várias bancas e barracas até que, numa banca de alfarrabista, encontrei um livro de Miguel Torga, um escritor de quem gosto muito, a 12ª edição de Contos da Montanha, lá regateei o preço e acabei por comprar. O que é engraçado é que o mesmo incluía o prefácio à segunda edição, escrito em 1945, um prefácio à terceira edição feito em 1952, e um à quinta edição de 1966.
O que me chamou a atenção foi o prefácio à segunda edição quando Torga dizia:
"Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medraram as raízes deste livro, encontrei tudo como deixei quando escrevi a primeira edição. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero.Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos". Isto em 1945! palavras proféticas...
Pensando bem, em 20016 poder-se- ia reescrever Torga fazendo umas ligeiras substituições:
Corre neste país um vento desolador de miséria que não deixa florir os cravos de Abril, nem viver com dignidade.

domingo, 13 de março de 2016

A palavra que substitui a preguiça

Esta tarde de Domingo tem sido triste, escura e chuvosa. Uma tarde em que me tenho sentido indolente e pouco produtiva, pouco dinâmica. Sim sinto-me indolente para não dizer preguiçosa, gosto mais da palavra indolência, dá classe e requinte à minha preguiça!
É então no meio dessa indolência, desse não fazer nada, desse sentir-me preguiçosa que olho à minha volta e os meus olhos batem em pequenas e antigas jarras, que tenho por aqui e por ali, e me pergunto:
Onde e quando foram feitas, que técnicas foram utilizadas, ainda se fabricarão peças destas??? 
Como a tarde é de indolência, há tempo para pesquisar,vai daí fiquei sabendo que no século XX, mais propriamente nas décadas de 40/50,  isto é a fase final do período Art Déco,  a industria vidreira em Portugal, na Marinha Grande,  caracterizou-se  por uma inovadora técnica decorativa que consistia na  aplicação no exterior das peças de vidro, de  grossas partículas de vidro coloridas que se fundiam com o vidro branco transparente conferindo-lhe uma textura rugosa mas suave ao tacto. Esta técnica, conferia às peças uma decoração em relevo com cintilações contrastantes entre a superfície do branco transparente e o exterior colorido, característica muito bonita devido ao jogo de luz e sombra assim obtido como podes ver nas fotos das minhas jarras.
E foi assim que uma tarde de indolente preguiça se transformou numa oportunidade de aprendizagem, para mim e quiçá para ti que se te interessares por estes assuntos, irás apressadamente, ver os vidros que tens em casa, legados pela tua mãe e ou avó e verificar a respectiva rugosidade; Se a encontrares tens uma peça bem antiga, autentica  e interessante... Estás de parabéns!









No dia em que a minha mãe chorou:
Em criança era muito tagarela, depois tive um período de maior timidez e reflexão e agora é o que se sabe, já não há remédio...
Como dizia então, em criança, era uma grande tagarela e a minha mãe, coitada, tendo sempre muito trabalho, pois era costureira, aproveitava-se dessa minha característica, punha-me à janela do quarto de cama e eu ia falando com a vizinhança que passava a tratar da sua vida, e eles também se metiam comigo, pois naturalmente, achavam-me graça!
Aconteceu certo dia, que eu não satisfeita com a conversa, ou porque não passasse ninguém para eu falar, não tive mais que fazer se não descer da cadeira onde me encontrava à janela, e pegar num menino de louça que estava sobre a mesa de cabeceira, e lá subi a cadeira, pondo-me de novo à janela com aquela imagem, à laia de boneca.
Foi então, que a minha mãe, ouvindo um barulho muito peculiar, se apressou a saber o que se passava. Tudo eram cacos na varanda, e eu lá ia dizendo que o menino tinha caído.
No inicio do séc. passado, na fábrica de louça de Coimbra fabricavam-se uns meninos de mãos postas, em terracota, com uma policromia muito suave, de olhos de vidro e com um cabelo muito encaracolado e uma inscrição na base que dizia ORAÇÃO. Eram lindos!
Tendo a minha mãe casado no segundo quartel desse século, os padrinhos de casamento haviam oferecido duas dessas imagens -uma de roupa azul e outra cor- de - rosa que a minha mãe usava nas mesas de cabeceira. Era o luxo de decoração na altura, e agora são peças de colecção, visto serem muito raros.
Ainda hoje me lembro, do rosto triste de minha mãe, onde corriam lágrimas que ela não conseguia controlar, tal foi a desolação...
Passaram-se muitos anos, e embora eu fosse muito criança quando isto aconteceu, nunca me esqueci desse dia e desse acontecimento, e foi por isso que, tendo encontrado num antiquário uma imagem semelhante, me apressei a comprá-la. Sinto que isto atenuou, um pouco, o pesar que senti, por muito tempo, por ter feito a minha mãe chorar!

sexta-feira, 11 de março de 2016

" O Lencinho que vai na mão, vai cair no chão! "

Todos os dias, quando a minha mãe me alindava e alisava a  bata branca, para eu ir para a escola, sim porque na década de cinquenta as crianças tinham que ir de bata para a escola, para nivelar, penso eu, para que todos parecessem iguais, pois a pobreza era tanta, que algumas crianças podiam ficar melindradas perante os colegas; Bem, como ia dizendo, quando vestia a minha bata imaculada, tinha sempre o cuidado de me certificar, se no bolso da mesma estava o meu lencinho, porque era coisa que não podia faltar...
 Como poderia participar  no "jogo do lencinho", aquele jogo em que todas as crianças faziam uma roda, ficando um aluno de fora,  o qual corria à volta , com um lenço na mão, enquanto todos  cantavam esta cantilena:
- " O lencinho que vai na mão, vai cair no chão! "
Deixando cair o lenço atrás de um colega qualquer o qual ao aperceber-se, pegava no lenço e corria atrás do companheiro, apanhando-o antes de ele completar uma volta, este ia para dentro da roda, e ele ficava no seu lugar, correndo à volta enquanto a cantilena se repetia.
Não, não podia ir para a escola de bolso vazio, pois não queria ser excluída da brincadeira, sentir-me-ia  muito infeliz!
O que eu não sabia na altura, é que aquele pequeno pedaço de pano, que no bolso da minha saudosa bata, me dava tanta segurança, tinha a sua história,  baseada na necessidade que o homem sentiu de ter sempre à mão algo com que pudesse limpar o suor, pois já na Roma antiga eram utilizados pedaços de pano para limpar o rosto e o pescoço, não sendo utilizados para assoar e eram chamados sudários.
Actualmente, o lenço de assoar é uma mera recordação dos tempos faustosos e de uma certa imundície, usados abundantemente na corte de Luís XIV.
Tudo isso foi substituído por lenços de papel em caixas ou pacotes, como este cuja foto te mostro, que recebi de presente no Natal passado, numa pequena saquinha de croché, e há quem diga que isto embora tenha sido uma evolução em termos higiénicos, o que não se pode deixar de concordar, em termos ecológicos foi um retrocesso, porque esta indústria é responsável pelo abate de dois milhões e trezentas mil árvores por ano, e um mau negócio para a indústria dos bordados. 
Na verdade, havia lenços lindíssimos e requintados, e eu tive alguns que te mostro. Aqui vão os lenços da minha vida, meras recordações, alguns ainda do tempo de escola, outros que usava na mala, em dias especiais, a combinar com a roupa usada, com umas gotas de "Bien-Être" ou "Lavanda" que era o perfume que eu tinha na altura. Enfim, outros tempos, outros hábitos...















terça-feira, 8 de março de 2016

Uma almotolia que rima com melancolia:
Uma almotolia é um pequeno recipiente para aplicar óleos lubrificantes. Esta palavra, almotolia é de origem árabe, o al no início da palavra é um artigo, portanto a palavra original era AL-MUTLIA, nome dado pelos árabes a certos recipientes de argila onde acondicionavam o azeite. Ainda hoje, no nosso linguarejar corrente usamos muitas palavras deixadas por esses povo como por exemplo: alface, alecrim, alfaiate, alfenim, alguidar, alcatra, algema, algodão, alfarrábio etc:
Ontem fez catorze anos que o meu pai faleceu e fui às Lajes, minha terra natal, visitei , no cemitério local a campa dos meus pais e fui lá a casa, entrei na velha casa de arrumos que também servia de adega e, ao abrir uma caixa carunchosa, encontrei esta almotolia de marca EAGLE, made in U:S:A. Que saudades, parece que naquele momento vi as mãos calejadas do meu pai a lubrificarem as dobradiças e as fechaduras das portas! Aí compreendi porque se diz que as pessoas são imortais, na verdade as pessoas não morrem enquanto permanecem no nosso coração e na nossa memória...
Então, cheia da melancolia, trouxe aquela velha peça para minha casa, lavei-a e limpei-a muito bem, como estás a ver. Não sei é para quê, embora saiba muito bem porquê!










MULHERES DA NOSSA TERRA:
Nesta dia dedicado à mulher, quero aqui registar e enaltecer o facto de na nossa terra, ilha Terceira, Açores, haver muitas mulheres que sabem que a alegria, o humor, o sorriso e a gargalhada franca são o melhor tranquilizante que se pode tomar os quais não têm efeitos colaterais... 
Todas têm as suas vidas, as suas famílias, as suas preocupações, os seus trabalhos, mas tiram tempo para gozar o Carnaval, para espalhar a sua irreverência saudável, vi-
vendo o momento presente, esquecendo as preocupações passadas e não querendo pensar que após o Carnaval outras preocupações virão.
E aqui estão alguns apontamentos das Mulheres do Porto Judeu, com o seu bailinho " O vale dos Pecados", as quais com a sua rebeldia assertiva foram como que uma brisa refrescante e um exemplo de que as mulheres cada vez mais estão conquistando o lugar a que têm direito.
Afinal as mulheres não precisam de demonstrar nada, pois pelo que se sabe, e pode concluir por este exemplo e outros semelhantes, já há muito ultrapassaram essa etapa!
Só precisam de oportunidades, as quais infelizmente, ainda estão em grande parte reservadas aos homens, embora todos saibamos que há homens medíocres, maus e incompetentes em muitas posições de destaque e de responsabilidade, e mais não digo porque é preciso ter cuidado com as palavras...
Ora tomem!!!



De meninas a mulheres

E as meninas...
Sorriram,
Sonharam,
Desabrocharam,
Cresceram,
Aprenderam
Floriram,
Amaram,
Deram-se...
E agora mulheres
Esperam, exigem, reclamam:
Que a vida lhes sorria,
Que a vida as recompense,
Que a vida  lhes floresça,
Que a vida lhes seja leve,
Por todas as amarguras,
Por todas as dores,
Por todas as lutas,
Por todas as aprendizagens,
Por todas as lágrimas,
Por todas as dádivas!!!

Clara Faria da Rosa

8/03/ Dia da Mulher
À minha amiga Lulu,
Uma amiga de sempre e uma grande Mulher
a quem muito devo.

Ser Mulher...

Ser Mulher
Ser Mulher
É ser um mundo 
Que gira à volta de Todos,
É ser profundo
Que entende os pensamentos,
É navegar
Contra e a favor dos ventos,
É alcançar
Porto seguro
E levar consigo os outros,
É ser agente
De paz, amizade e afectos,
É ser um ser
Que os seus filhos ensina
A construir o próprio mundo,
 É ser tão fundo
Que segue dos filhos os passos 
Do princípio até ao fim,
É saber pintar o feio
De delicadas tonalidades,
Para o mundo transformar
Em leito macio e ternurento
Onde se possa viver
Uma verdadeira aventura,
Toda a força da ternura,
Amor, delicadeza, verdade...
E onde não haja maldade!

Clara Faria da Rosa
( Dia da Mulher )




A  todas as mulheres corajosas que como eu,  lutam para que o que eu digo acima seja verdade.
 Um beijinho amigo, neste dia especial